Artigo completo sobre Talhinhas e Bagueixe: Planaltos de Pedra e Silêncio
Conheça a união de Talhinhas e Bagueixe em Macedo de Cavaleiros, Bragança: território de planaltos, gastronomia transmontana e tradições ancestrais.
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O vento sopra sobre os planaltos a 586 metros de altitude, levantando o cheiro a terra seca e erva de centeio que se agarra aos sapatos. Aqui, na união de Talhinhas e Bagueixe, o silêncio é tão espesso que o badalar do sino de Bagueixe acorda quem dorme em Talhinhas, a três quilómetros. Nas ruas de xisto, os muros de pedra sem cimento sobrevivem a abanões - cada pedra encaixada à mão de quem as colocou há cento e cinquenta anos.
Duas aldeias, um território
A fusão de 2013 veio só no papel. Na prática, quem nasceu em Talhinhas continua a dizer que é "das Talhinhas" - e ninguém se esquece que o médico vinha a Bagueixe, mas o padre vinha às Talhinhas. As igrejas de Santo Ambrósio e São Pedro ainda disputam fieis: na procissão de Agosto, os andores roçam-se no caminho de terra batida, e quem não vai a missa vai ao arraial mesmo assim. O acordeão do Carlos toca até de madrugada, mas são as filhas dele - que nunca pisaram Lisboa - que agora ensinam os passos aos netos dos que bailavam antes.
O sabor da Terra Fria
O ensopado de borrego demora o que demora: três horas de lume brando, com o tacho de ferro a ranger no fogão a lenha. A Maria do Celestino ainda vai à horta buscar o louro - tem um pé que veio da mãe, que veio da avó. O pão é do Zé Mário: mexe a massa às quatro da manhã, vai ao forno às seis, e às oito já está na esplanada do café a arrefecer. O queijo Terrincho do Tonho cura na cave onde o avô escondeu o vinho do fisco - hoje tem DOP, mas o sabor é o mesmo de quando se fazia "para durar".
Entre planaltos e ribeiros
O Ribeiro de Bagueixe seca no Verão - deixa só a marca de água nas pedras, brancas de calcário. Mas no Inverno transborda, e é preciso saltar de pedra em pedra para atravessar o caminho que vai às Talhinhas. A albufeira do Azibo fica a vinte minutos de carro, mas aqui ninguém diz "vou à praia" - diz-se "vou à barragem", como se a água ainda fosse só para regar o milho. No Geopark, as pedras têm nomes: é o "Carrascal", é o "Pego do Gato" - nomes que os mapas não mostram, mas que os pastores gritam quando os cães se perdem.
A raridade de um nome
Talhinhas é o único sítio que se chama Talhinhas - e isso servia para os velhos se rirem dos carteiros de fora que não encontravam a aldeia. Bagueixe tem mais sorte: há uma no concelho de Vinhais, mas essa é "Bagueixe de Vinhais", esta é "Bagueixe de Macedo". Com 262 almas, contar os habitantes é fácil: faltam os que foram para França, sobram os netos que cá voltaram "porque a vida lá fora não é vida". A Lucinda, com 89 anos, ainda cospe as monhas no banco de pedra - diz que a aldeia morre quando ela morrer, mas na última festa foram 400 pessoas. "Sempre a comer sardinhas", queixa-se ela, "mas pelo menos cá vêm".
A tarde cai devagar. No fumeiro do Horácio, as chouriças pendem desde Dezembro - estão quase prontas, mas ele diz que "fumam até ao São João, senão não têm gosto". Lá fora, o vento volta a soprar, trazendo o cheiro a esturro queimado e o eco do sino das seis. Não é hora de relógio - é hora de fechar as galinhas, de ir jantar, de deixar o dia acabar como tem acabado há cento e cinquenta anos.