Artigo completo sobre Vale da Porca: onde o sino marca o tempo transmontano
Aldeia de granito e xisto junto ao rio Porca, entre olivais e memórias antigas de Trás-os-Montes
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O sino da igreja abre a manhã com um som que não se ouve — sente-se. Vibra no peito, desce pela espinha, espalha-se pelos ombros como um casaco frio. São oito badaladas que ninguém conta, mas todos reconhecem: é a hora de o pão ir ao forno, de o café estar no coador de pano, de as galinhas começarem a mexida na pocilga. Vale da Porca não acorda; desperta, como quem abre um olho de cada vez.
O nome vem do rio, sim, mas nenhum de nós o chama por aí. É «o ribeiro», simples, ou «a água» quando se fala de regar o horto. Corre lá em baixo, entre silvas e amieiros, e no Verão seca tanto que se lhe mexem as pedras com a ponta do sapato. Nas Inquirições já cá andavam, é verdade, mas o que importa é que a terra tem memória de mais: ainda se encontram moedas romanas ao lavrar o campo, e na Encosta do Castro há pedras que os velhos dizem ser de uma estrada antiga — «de quando os mouros andavam por cá», embora ninguém lhes dê crédito.
O território das pedras antigas
A igreja matriz é pequena, mas o tecto de madeira cheira a cera e a incenso de domingo. Na sacristia, o fontanário tem uma rachadura que ninguém arranja — «é para lembrar que a água também cansa». Os «moços de convite» não convidam ninguém; estão ali há trezentos anos, com os olhos de tão abertos que parecem cansados. A capela de São Sebastião fica no cimo de um lajedo; quando o vento é norte, a porta bate sozinha e faz um eco que se parece com um estalo de chicote.
Santo Ambrósio é longe para quem vai a pé. Começa logo depois da última oliveira da Mãe Ana, sobe-se o carreiro entre urzes, passa-se o porto onde o gado bebe, e ainda se caminha uma meia hora entre pedras que escorregam. Mas no domingo da romaria, os pés não pesam. Vai-se de lã nova nos ombros, leva-se o garrafão de vinho tinto, o pão de milho, o queijo envolto no guardanapo de papel. A missa é curta, o sermão é longo, mas o que fica é o cheiro a alecrim queimado nos cacharros de barro, e o grito das crianças que descem a correr até à fonte.
Banrezes não é bem abandonada. Há um cão que vive lá, um branco com manchas pretas, que vem à estrada quando ouve passar um tractor. As paredes estão caiadas de azul-celeste por dentro, e numa casa ainda há um calendário de 1987. Dizem que foi a tifoide, mas a avó dizia que foi a emigração: «um foi, depois outro, depois nenhum quis ficar». Hoje é lugar de ervas-mouras e de melro-preto. E de medo, quando o sol se põe e os silvos começam a conversar.
Geologia à flor da pele
O talco é coisa que se sente antes de se ver. O chão muda de cor — fica mais claro, mais macio, e o sapato escorrega como em sabão. Antes havia gente que o ia buscar para tirar nódoas das toalhas; hoje só os estranhos vêm tirar fotografias. Os sedimentos são outra história: camadas tão finas que parecem folhas de livro, mas que contam milhões de anos em cada centímetro. O miúdo mais novo da aldeia, o Tomás, trouxe um dia um fossil de concha tão perfeito que parecia de loja. A mãe pôs-no em cima do toucador, junto ao pente e ao frasco de loção.
A albufeira do Azibo fica a quinze minutos de carro, mas para nós é o mar. Vai-se de toalha ao ombro, de chinelos nos pés, e leva-se sardinha assada num papel de alumínio. A água é fria até em Agosto; quando se entra, o corpo fica dorido durante um minuto inteiro. Depois passa. E depois já não se quer sair.
Sabor transmontano sem artifícios
O azeite é amarelo-torrado, espesso, e deixa na garganta um arranhão que só passa com um gole de vinho. A broa é de milho da terra, e quando está no forno, o cheiro mete-se pelas frestas das portas e faz o cão rosnar para nada. A azeitona Negrinha é pequena, tem um caroço que se parte com a unha, e deixa os dentes negros durante o resto do dia. O cabrito vai para o forno às seis da manhã; às dez já se sente na praça, e às doze é um murmúrio de estômagos. A pele é o que se disputa — crocante, salgada, com gordura que escorre pelo queixo e que se limpa com a manga da camisa.
O queijo Terrincho não se corta; parte-se. Tem um cheiro que se parece com o estábulo, mas na boca é doce, quase nenhum. Come-se com marmelada caseira, a que ainda tem pedaços de fruta e um fiapo de fio de cabelo da tia Albertina.
Na praça que leva o nome do Roberto Leal, há um banco de cimento onde o sol se fica à tarde. O vento traz folhas de sobreiro e o cheiro a estrume que os tratores levam para as leiras. O busto do cantor está descascado na orelha esquerda; dizem que foi um emigrante brasileiro que tentou roubar, mas a pedra é pesada demais para as mãos saudosas. Ao cair do dia, quando o céu fica cor de tijolo, ainda se pode ouvir «Chiquita» a sair da janela da farmácia — é o filho do Roberto, o Carlos, que pôs o disco antigo para tocar em vinil. O som é rachado, mas a voz é de cá. E por isso fica.