Artigo completo sobre Vilarinho de Agrochão: pedra, azeite e altitude
Aldeia transmontana a 493 metros, entre olivais centenários e o silêncio da Terra Fria de Bragança
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A luz da manhã cheira a terra fria e a fogo de raspão quando desço a curva que entra em Vilarinho. O nevoeiro agarra-se ao vale como um cobertor húmido e, entre os olivais, ouve-se o primeiro grasnido das cotorras que vêm do Azibo — não é silence, é pausa. Duzentas e dezasseis pessoas, diz o papel, mas na taberna só há três: o Sr. António debruçado ao balcão, a D. Rosa a contar os tostões para o café e o cão Lobo a roer um osso de porco preto que ainda fuma no chão. Todos nasceram aqui, todos têm mais de setenta, todos sabem que o inverno começa quando a urze flor e acaba quando a amendoeira se desnuda.
Terra de pedra e azeite
As casas não estão “espalhadas sem pressa”: foram-se agarrando ao souto para não rolar abaixo. O xisto é o mesmo de sempre, mas o granito veio de navio inglês que naufragou no limiar do século — serviu para os limiares das portas, que ainda rangem com o mesmo tom de sempre. No muro da cisterna há uma rocha com fósseis de conchas; a escola primária fechou, mas ainda se aponta com o dedo: “olha, o mar esteve aqui”. Dois monumentos classificados: a capela de Santo Ambrósio, onde se baptizaram quatro gerações, e o forno comunitário que só abre no dia de S. Martinho, quando o cheiro a castanha se mistura ao vinho aguado que o padre abençoa.
A albufeira fica a quatro voltas de estrada, mas o vento traz-lhe a água pela manhã — cheira a barro e a peixe. Quando o nível sobe, os sapos ganham voz; quando desce, aparecem as marcas das ancoras dos pescadores espanhóis que se perderam na fronteira líquida.
Sabores certificados
O azeite prensa-se em Novembro, dia 20, logo às sete da manhã, antes de a pedra aquecer e estragar o fruto. O lagar é o mesmo desde 1953: duas rodas de madeira que rangem como velhas conhecidas. Cada familia leva o seu saco de olives e leva de volta o seu garrafão; não há rótulo, há fita adesiva com o nome escrito a marcador. A castanha vai para o forno de lenha de carvalho, mas só depois de molhar a boca do lume com aguardente — “para o fogo não se zangar”, diz a D. Ildefonsa. O cabrito é do Zé Mário, que o cria no curral debaixo da amendoeira; mata-se ao domingo, come-se na segunda, nada se congela. O queijo de cabra é da Amélia: coalha com cardo, salga-se com punhados de sal grosso, enrola-se em pano de arroz e leva-se ao forno a abrir a boca — fica com crosta de terra e sabor de feno. O mel é de quatro colmeias que sobreviveram à vespa asiática; tem nota de rosmaninho, sim, mas também de eucalipto que o vizinho plantou para pagar o crédito.
Festas que marcam o calendário
Santo Ambrósio, 7 de dezembro — missa às onze, depois sopa de nabos com toucinho e pão de centeio que a D. Odete faz de fermento pego. Não há cartaz, há telefone: toca-se às nove da manhã para ninguém se esquecer. São Pedro, 29 de junho — fogueira no adro com pinhas de pinheiro-manso que estalam como tiro; o vinho é do ano passado, ainda faz borra, mas ninguém repara. As cadeiras são as mesmas de sempre, guardadas no celeiro do presidente da junta; têm o nome marcado a pregos para não haver confusão. Não há alojamento “em moradia”: há quarto de sobra na casa da avó, lençol de flanela que cheira a naftalina e pequeno-almoço com broa tostada no fogão a lenha — manteiga caseira se o vaca cooperou.
Ao entardecer, o vento desce do alto da Serra de Bornes e leva a fumça das lareiras pelo vale. O cheiro é de carvalho verde, de oliveira queimada, de terra regada por dentro. Vilarinho não pede para ser vista; pergunta é quem fica para o fim do cigarro, quando o céu fica cor de ferrugem e o silêncio chega tão grosso que se ouve o corpo descer a estrada de terra.