Artigo completo sobre Vinhas: aldeia transmontana entre cepas e lagares
Freguesia vitivinícola nas encostas do Azibo, com socalcos centenários e tradição vinhateira viva
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O fumo sobe torto da chaminé de xisto, porque o vento do norte empurra. Nas encostas que descem para o vale do Azibo, os socalcos não são perfeitos — nunca foram. São pedras encaixadas umas nas outras, com falhas que a mão do tempo foi ajeitando. O nome da aldeia não mente: Vinhas tem mais vinha que casas, e ainda há quem diga que o mosto pisado no lagar do Zé Manel tem gosto a terra diferente do que se faz na adega do Joaquim.
Aqui, a vindima não é tradição — é Setembro. É a Maria da Bica a chamar pelos netos às sete da manhã, é o Arménio a queixar-se que as uvas este ano estão muito doce. O vinho que se faz dá para o ano todo, para os copos de tampa de madeira no café do Júlio, para as garrafas que vão para Lisboa nos plasticos dos filhos que emigraram.
O que se sente
O trilho do Geopark passa mesmo ao lado da minha casa, mas ninguém o faz parado. Os alemães sobem rápido, param para tirar fotografias ao xisto. Eu subi aquela ladeira toda a vida para ir buscar as vacas — agora já não há vacas. A serra de Bornes está ali, sempre a mesma, mas o azibo muda de cor: verde em Maio, cinzento em Janeiro, dourado agora em Setembro quando o sol se põe atrás do cacho de nuvres.
As festas de Agosto são o que são. O bailarico na alameda começa às onze, mas as pessoas já estão lá desde as nove a olhar para o lado. Há ano passado o forno de lenha do clube despedaçou-se a meio do cabrito — tivemos de levar os tachos todos para a casa da D. Alda, que ainda tem fogão a lenha. A chouriça de carne de Vinhais é boa, mas a da Cremilde é melhor. O queijo Terrincho do Zé Fernando tem buracos pequenos, sinal que o leite estava bom.
O que fica
Centos e sessenta pessoas, mas isto conta quem tem casa aqui e vive no Porto. Na realidade somos cinquenta e tal, e nem todos os dias. O médico vem à terça, mas às vezes falta e ninguém avisa. A escola fechou há dez anos, agora é o centro de dia onde o meu pai vai jogar sueca e reclamar que o café é fraco.
Mas as oliveiras continuam ali, ninguém as deita abaixo. A minha mãe ainda vai ao souto de Outubro, mas agora sobe de carro até meio caminho. O mel do Zé Carqueja vende-se bem — tem um sabor a giesta que as pessoas de fora gostam. E no fim do dia, quando o sol se põe atrás da igreja e as pedras da rua ainda estão quentes, o silêncio é tão grande que se ouve o Azibo a correr lá em baixo.
Fica o cheiro a xisto molhado quando começa a chover. Fica o gosto do vinho que o meu pai faz, azedo no início mas que depois se torna doce na boca. Fica a pedra da escada da minha avó, gasta no meio onde ela passava todos os dias a ir buscar água ao poço. Coisas que não se explicam, só se sentem — e só se sentem aqui, onde o nome da terra não é só um nome, é o que somos.