Artigo completo sobre Constantim e Cicouro: Romaria na Raia Transmontana
Capela da Luz reúne portugueses e espanhóis numa das últimas feiras binacionais da fronteira
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O vento chega primeiro. Atravessa os 776 metros de altitude da Terra Fria transmontana com um assobio seco que se infiltra pelas frestas dos muros de xisto, sacode os carvalhos nas encostas e faz estremecer a superfície escura do rio Fresno. Aqui, onde a raia com Espanha é uma linha invisível que só se percebe pela mudança subtil no sotaque e na moeda, Constantim e Cicouro partilham o silêncio denso das aldeias de fronteira — apenas 153 habitantes distribuídos por mais de 3600 hectares de patamares agrícolas, matas de resinosas e vales encaixados.
Pedra, fé e romaria internacional
No cimo do cabeço da Luz, a Capela de Nossa Senhora da Luz domina a paisagem como um farol terrestre. Todos os anos, no último fim de semana de abril, a subida até ao santuário transforma-se numa peregrinação binacional: fiéis portugueses e espanhóis convergem para a romaria que mescla devoção e comércio, com bancas de doces, ferramentas e artesanato estendidas ao longo do caminho. A feira é um dos raros eventos em Portugal onde a fronteira se dissolve completamente — comerciantes de ambos os lados da raia montam tenda lado a lado, numa língua híbrida de mirandês, castelhano e português.
Mais abaixo, a nordeste da aldeia, os vestígios de um castro romanizado ainda marcam a terra. A ocupação humana aqui é antiga, motivada pela abundância de água e pela fertilidade dos solos que permitiram gerações de cultivo de centeio e criação de gado. Em Cicouro, cujo nome pode derivar da tribo astur dos Cigurris ou do basco "zikirio" (centeio), a Fonte da Senhora e a Fonte de Baixo continuam a jorrar água fria que escorre pelos chafarizes de pedra, tal como faziam quando o Carril Mourisco passava por aqui, rota estratégica entre dois reinos.
Máscaras, morcelas e solstício de inverno
Entre 27 e 30 de dezembro, Constantim celebra a Festa do Carocho e da Velha, ritual pagão cristianizado que antecede o Ano Novo. Personagens mascaradas percorrem as ruas — o Carocho, a Velha, os Pauliteiros — num cortejo que evoca ciclos agrícolas ancestrais. A morcela de arroz, fumada nos palheiros, é a estrela da mesa, acompanhada de Carne Mirandesa DOP assada em fornos de lenha e vinho tinto da Rota dos Vinhos do Trás-os-Montes, de acidez firme e corpo encorpado pelo clima continental.
Trilhos na raia do silêncio
Inserida no Parque Natural do Douro Internacional, a freguesia oferece caminhos que seguem a linha de fronteira. O Ribeiro de Matáncia nasce nos arredores de Cicouro e serpenteia entre penedos cobertos de musgo até desaguar no Douro. Nos pontos mais altos, como o Serro do Naso, o olhar alcança vales profundos onde planam abutres-do-egito em círculos largos. Ao entardecer, quando o sol rasante incendeia o granito das capelas e o xisto dos pombais tradicionais, o lobo-ibérico pode cruzar a raia invisível sem pedir passaporte.
A National Geographic Portugal elegeu Constantim Aldeia do Mês em abril de 2022, reconhecendo uma identidade que resiste ao esvaziamento — 77 idosos para 7 jovens, mas uma teimosia transmontana que se recusa a apagar o lume. Quando a noite cai sobre a Terra Fria e a luz amarela das janelas perfura a escuridão, o som que permanece não é o sino da igreja nem o vento nas árvores: é o crepitar da lenha nos fogões de sala, aquecendo mãos e histórias que ainda não querem ser esquecidas.