Artigo completo sobre Picote: Granito, Águias e Mirandês nas Arribas do Douro
Aldeia de xisto sobre o cânion do Douro Internacional, onde a língua mirandesa ainda resiste
Ocultar artigo Ler artigo completo
O granito queima sob a palma da mão. Na Fraga de Puio, o vento leva-nos o cheiro das urzes pisadas e o pó das pedras mói-se entre os dentes. Lá em baixo, o Douro parece parado, mas basta parar de respistar para ouvir a água a roer a garganta do socalco. Quando a águia passa, não é só o silêncio que se parte — é a própria montanha que vacila no ar quente que sobe a rodos.
Picote agarra-se à encosta como quem se agarra à vida: casas de xisto com telhados novos que não disfarçam as costuras dos tempos, portas pintadas de azul elétrico que batem ao ritmo do vento do canyon. Na Casa do Toural, a porta range no mesmo sítio desde que eu tinha nove anos. Ainda se vê o raspanho onde o burro esfregava o lombo todas as tardes quando voltávamos dos campos. A Igreja Matriz continua a cheirar a cera e a roupa engomada aos domingos, mas agora são dez pessoas no banco das traseiras e o padre vem de carro de Sendim. A capela de Nossa Senhora de Fátima, essa sim, é outra história: construída à pressa com as sobras das obras da barragem, ainda tem a ferrugem das ferragens por cima da porta. Os operários chamavam-lhe "a igreja do cimento" — rezavam missa de corpo presente antes do turno das seis.
Onde o Douro faz a fronteira
O parque envolve-nos como um lenço de ar: cheira a esteva queimada, a medronho pisado, a serpente que passou. O Ribeiro de Picote não desce — fica. Fica nos poços onde as raparigas antigas lavavam a roupa até aos ossos, fica na pedra lisa onde ensinámos os miúdos a nadar. Os grifos não planam: são eles que mandam aqui. Conhecem cada saliente, cada nicho onde aninham. Quando o miradouro de vidro abriu, o Zé Mário teve de vir de noite tapar as luzes: os abutres-andavam desorientados, batiam contra o vidro como se o céu se tivesse partido.
Língua que se vai
O mirandês em Picote cheira a mofeta das caves e a pão de centeio. Ainda se ouve "bom día" na boca da Dona Alda, mas ela já não sai à rua. A Frauga guarda as palavras como quem guarda sementes — na loja, o mel tem o rótulo escrito à mão porque a impressora estragou há três anos e ninguém a arranjou. No Centro do Ecomuseu, as fotografias já estão a desbotar: o meu avó está lá, com a enxada ao ombro, e eu sei que foi ele que posou porque lhe falta o dedo mindinho — perdeu-o na debuxadeira quando eu tinha seis anos.
À mesa
A carne mirandesa não chega a Picote. Vai toda para Miranda, para os restaurantes. Aqui comemos o que sobra: o borrego do António que nasceu coxo, o porco que matámos em novembro e que ainda dá para o chouriço que fica pendurado na lareira. O presunto é do meu cunhado, de Vinhais, mas o pão é nosso — feito com fermento da minha mãe que tem 84 anos e ainda vai ao forno comunhal às cinco da manhã. O vinho vem em garrafões de cinco litros, trazidos por quem vai à feira de Bruçó. Não tem rótulo, tem gosto a terra e a uvas que o meu primo não conseguiu vender.
O que fica
O castro lá em cima é só uma pedra amontoada com vista. Mas de noite, quando o cão late, dizem que é o gênio-ladino que ainda guarda os tesouiros dos mouros. A central elétrica está fechada desde 2015, mas a água continua a entrar pelas frestas do gradeamento — faz uma música que me lembra o tempo em que o meu pai trabalhava lá, trazia o sapato cheio de peixe miúdo que se metia nas turbinas.
O vento agora traz o cheiro a eucalipto queimado. O grifo pousou na mesma pedra de sempre, a que chamamos "a cadeira do padre". Fica imóvel, mas eu sei que está a ver o tempo todo: sabe que daqui a nada já não há ninguém para lhe contar que esta pedra já foi altar, já foi moinho, já foi tudo — e agora é só o sítio onde os turistas tiram fotografias antes de ir embora.