Artigo completo sobre Silva e Águas Vivas: onde o silêncio tem altitude
Freguesia mirandesa a 716 metros, entre pastagens de gado DOP e vales do Douro Internacional
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O silêncio aqui tem peso. Não é ausência de som — é o vento que desce do planalto e bate nos telhados de duas águas, é o grasnado dos burros que ainda pastam nos soutos, é a porta da tasca a ranger quando o António vai buscar mais um fino. A 716 metros, o ar é fino e o xisto estala debaixo das solas como se estivesse vivo. Nas encostas, os giestais em flor cheiram a mel rancoso e, se abrires a boca, o vento deixa-te o gosto a poeira e a mirto.
Silva e Águas Vivas são duas aldeias que ainda se cumprimentam de longe. Em Silva, o lugar onde os caminhos se cruzam chama-se Largo do Cruzeiro e tem uma cruz de granito de 1742 que ainda serve de ponto de encontro. Em Águas Vivas, a fonte da vila nunca secou — mesmo no verão que queimou tudo em 2017, ela continuou a borbulhar, fresca, como se nada fosse com ela. A junção de 2013 veio nos papéis; na realidade, continuam a ser duas tiradas de voz diferentes no mesmo vale.
O que se come (e quando)
Quando cheira a carvalho a arder, é dia de matança. O porco é do Pedro, mas ajudam todos: o Adelino traz a mesa de despir, a Natércia faz a moça de sangue com o pão de ontem, o Miguel vai buscar água à fonte antes que gelé. O presunto vai para o fumeiro lá em cima, por cima da lareira, onde o fumo lhe dá a cor de mogno. Em abril, quando os borregos já não mamarão, é o cordeiro de leite no forno de lenha: a pele fica estaladiça, a gordura escorre para o pão de milho que a avó Amélia faz às quartas-feiras. O vinho tinto é do Tonho — uva bastardo, muito sol, pouca água — e bebe-se em copos de jeito, não nesses balões de turista.
O que se faz (quando não se faz nada)
O Parque Natural começa mesmo ali, depois da última casa. O trilho do Rio Angueira segue o leito seco até às poças onde ainda se apanham bogas de boca pequena. Em maio, os machos trazem o papo vermelho e parecem ter pegado fogo. Subindo, os sobreiros torcem-se como se estivessem a fugir do vento; nas suas copas, os melros-builders fazem ninhos suspensos que balançam mesmo sem folha. Quando o céu está limpo, avista-se a torre da vila de Miranda, lá longe, como um palito de dentes deitado.
As três festas que ainda importam
- Trindade (segundo domingo de junho): começa com a missa de corpo presente às 11h, mas o cheiro do assado já se sente desde as sete. Depois da procissão, a banda toca o hino da Trindade que toda a gente finge saber de cor.
- Luz (15 de agosto): traz gente que nem se lembrava de ter parentes cá. À tarde, há concurso de pesca no tanque da Quinta do Ribeiro — prémio: uma garrafa de aguardente e um cabaz de pimentos.
- Bárbara (primeira quarta-feira de outubro): é a mais pequena, mas é a que tem doce de Santa mais açucarado. Servem-se castanhas assadas no largo e, se chover, mete-se tudo na capela-mor, até o gato do cemitério.
Ao entardecer, quando o sol se põe atrás do Marco de 1026 metros e o xisto ferve em tons de ferrugem, soam três badaladas da igreja de Silva — não para avisar da missa, mas para a Maria saber que é hora de ir buscar as galinhas. O fumo sobe direito das chaminés. Cheira a lenha húmida, a terra que arde nas mãos do José enquanto ele ainda liga a sachola, a borra do vinho que secou no copo. É este cheiro que fica na roupa, no cabelo, na memória: o aroma de um lugar que não se rende, que se agarra à pedra como a samambaia que nasce no muro da escola fechada.