Artigo completo sobre Alvites: máscaras de madeira e chocalhos em Dezembro
Festa dos Rapazes e fumeiro tradicional numa aldeia de xisto acima do vale do Tua
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O fumo da lenha sobe preguiçoso, como quem não tem pressa de ir a lado nenhum. É Santo Estêvão e Alvites — essa aldeia de 171 almas que o mapa esqueceu entre Mirandela e a Serra — resolve lembrar-se que existe. A Festa dos Rapazes começa assim: um miúdo de 14 anos mete uma máscara de nogueira na cara, amarra um chocalho de vaca no cinto e grita pela rua que a lei é dele até aos Reis. Ninguém lhe diz que não. Aqui, quando os rapazes mascarados descem à aldeia, até o padre afina o passo.
Terra que não congela mas ferve no verão
Alvites é um lugar de invernos curtos e verões que partem as pedras. Está à meia encosta, a 471 metros, de onde se vê o vale do Tua a dormir lá em baixo. As oliveiras gostam do clima — não são parvas — e por isso há azeite com DOP e azeitonas que a minha avó guardava em barris de barro para o Natal. Nos quintais, as castanhas da terra fria (sim, também têm DOP) caem das árvores como se fosse troco. E nos currais, o borrego que vai dar ao Queijo Terrincho come erva antes de ser queijo. É tudo muito simples: o que nasce cá, come-se cá, e o que sobra pendura-se no fumeiro.
Falem o que quiserem da despovoação, mas Alvites ainda tem treze crianças a rasgar os joelhos e sessenta e três velhos que lhes dizem “vai lá ver se o galinheiro está fechado”. A densidade é de 9,6 pessoas por km², o que quer dizer que pode gritar à boca cheia que ninguém lhe vai pedir para baixar a voz.
O fumeiro é o banco da aldeia
A cozinha de Alvites não é instagramável — é comestível. O presunto cura devagar, pendurado na lareira como quem espera melhor dia. A alheira, essa invenção genial dos judeus que fingiam comer porco, leva aqui pão de milho e um murro de alho. E a chouriça de carne — não confundam com a de sangue — aguenta-se o ano inteiro, se os ratos não forem espertos demais. O forno comunitário ainda funciona: às vezes é o António que atiza, outras é a D. Rosa que faz broas para a missa. Ninguém marca hora. Basta cheirar a lenha queimada para saber que há pão ou cabrito.
A Festa dos Rapazes não é folclore para turista. É a aldeia a lembrar-se que antes havia mais gente e menos lei. Os rapazes — que na vida normal são os putos da escola de Vila Chã — tornam-se senhores por três dias. Batem à porta, exigem o seu direito de “facho” (um rolo de linguiça, um garrafão de vinho tinto, umas castanhas que ainda estão quentes), e ninguém lhes fecha a porta na cara. É assim que se ensina a etiqueta: se um dia fores homem, lembra-te de que também foste rapaz.
Quando a luz se vai, o xisto das casas fica cor de ferrugem e o som dos chocalhos já não se sabe se é da festa ou do vento. Alvites fica pequena, mas nunca fica quieta. Há sempre um cão a ladrar, um tractor a aquecer ou um velho a dizer que o Inverno está para durar. E, lá no fundo, isso é o que faz uma aldeia: não as casas, mas o barulho que elas fazem quando pensamos que já ninguém lá vive.