Artigo completo sobre Bouça: fumeiro e rituais pagãos no vale do Tua
Aldeia transmontana onde o fumeiro artesanal e a Festa dos Rapazes preservam tradições ancestrais
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O fumo sobe do fumeiro em fio direito, como o cigarro do Zé que se aguenta entre os dedos enquanto ele conta como a avó curava o presunto. Em Bouça, a 404 metros de altitude, o inverno ainda se faz na lenha do carvalho e na paciência de quem espera. São 182 almas, sim, mas conta melhor assim: na taberna cabem todos e ainda sobra lugar para o cão do António.
O calendário da pedra e do fogo
A 26 de Dezembro, os rapazes metem as máscaras de madeira que o pai deles já usava. Não é teatro, é preciso: as máscaras de madeira pesam, os chocalhos fazem barulho que mete medo aos cães, e há sempre um velho que se lembra de quando havia três vezes mais gente a ver. Hoje são dez putos entre os zero e os catorze anos. Dez. Conta-se pelos dedos de duas mãos e sobra espaço para mais um.
Meses depois, queimam a Velha na praça. É sempre na mesma: alguém traz a palha, outro traz o vinho, e toda a gente finge que não vai chover. Quando as brasas sobem, lembra-se quem já não cá está. É assim que se faz desde que o pai do meu pai era menino.
Fumeiro e terra
Bouça não é aldeia de postais. É aldeia onde o fumeiro é negócio sério - se o presunto falha, o Natal fica a meio. Aqui faz-se alheira que não é para turista ver, é para comer com broa quente e vinho da casa. E não venham cá com histórias de degustação: ou come-se à mesa da dona Odete ou não come-se.
Nos 1299 hectares, os cabritos pastam onde o avô plantava centeio. A batata cresce na terra preta que o rio deixou, e o pão vai ao forno às quartas e aos sábados. Quem quer queijo Terrincho, vá lá ter ao Nuno. Mas ligue antes - ele pode estar na vinha ou na feira de Mirandela.
Geometria do isolamento
A estrada até Bouça faz-se em ziguezague, como quem não quer ir. São 14 habitantes por quilómetro quadrado, mas isto diz-se melhor assim: dá para gritar o nome do vizinho do outro lado do vale e ele ouve-te. Às vezes é só isso que se precisa.
O azeite é de olivas que o avô plantou, as pipas de vinho já não são muitas mas ainda há quem faça para o filho levar quando vai estudar para fora. A logística é o que é: se o camião dos correios se engana, fica para a semana. Mas também não há pressa. O presunto demora o tempo que demora, e o tempo em Bouça não é dinheiro - é só tempo.
O sino toca três vezes ao meio-dia. Ninguém olha para o relógio, mas toda a gente sabe que é hora de almoço. O fumo continua a subir, paciente como quem espera. Espera o quê? O próximo inverno, o próximo presunto, o próximo que venha cá parar e fique para jantar.