Artigo completo sobre Carvalhais: onde o Natal se serra ao som do latim
Fumeiro, aguardente e rituais centenários marcam o calendário desta freguesia transmontana de Mirand
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O som chega antes da imagem: o raspar rítmico de uma serra de dois homens a cortar um tronco de carvalho, acompanhado por vozes que cantam em português antigo. É véspera de Natal em Carvalhais, e o Serrar a Belha começa às 21h na Casa do Povo. Quem quiser ver de perto, chegue antes das 20h - há broa quente e aguardente para todos, mas são 200 pessoas no máximo.
O calendário feito de gestos
A 26 de dezembro, os rapazes começam às 7h na Igreja Matriz. Percorrem 48 casas em grupos de 10, com concertina e bombo. Em cada porta recebem bolinhos de mel e um copo de vinho - quem levar deve ter prontos os doces caseiros, é tradição desde 1870. No dia 20 de janeiro, a missa de São Sebastião é às 11h na Capela de Aldeia Nova. Leve o cão às 10h30 para a bênção - o leilão começa às 13h no adro, reverte para o telhado que continua a pingar.
Entre a serra e o azulejo
A Igreja Matriz abre todos os dias às 9h. O relicário com o osso de Santo Estêvão está visível do lado direito do altar - é mesmo um fragmento, do tamanho de uma unha, trazido por António Pires em 1789. Subir ao campanário custa 2 euros pago ao sacristão que mora atrás. Vista-se bem: são 67 degraus de pedra escorregadios. Do topo vê-se o Tua a fazer curva, os olivais do João e as 25 hectares de mato queimaram no verão passado.
Fumeiro, azeite e pão de broa
A alheira de Carvalhais tem pão de trigo, não de milho - é a única diferença para a de Mirandela. Compre-a na mercearia da D. Rosa: 8 euros o quilo, fumada na chaminé dela. O azeite é cobrançosa, vindima em novembro, 6 euros o litro na Quinta do Patal. A broa sai do forno comunitário às 7h de sábado - chegue antes das 8h ou acaba. O forno é lenha de sobreiro, aquece 3 horas, faz 40 broas de cada vez.
Trilhos, aves e memórias do carvalho
O Trilho dos Moinhos começa na ponte sobre a ribeira, junto ao café O Tua. São 8 km, 2h30, marcados com fitas amarelas. O moinho do Carril abre domingo às 15h - o João, que tem 82 anos, mostra a roda a girar. Às 16h30 fecha, vai jantar. No miradouro da Ribeira, a 500 metros, há águia-cobreira às 7h30 quando o nevoeiro sobe - leve binóculos. Os carvalhos são agora 12, todos protegidos. O nome vem deles, mas cortaram-nos quase todos para o carvão nos anos 50.
Hoje moram aqui 1 229 pessoas. A escola tem 18 alunos, a médica vem terças e quintas. Mas o forno comunitário acende todos os sábados, o Encontro de Gaitas junta 150 pessoas em agosto, e o tronco de Natal ainda cai às 23h de 24 de dezembro com o mesmo machado de 1920.