Artigo completo sobre Cedães: onde o fumo das lareiras marca o tempo
Freguesia transmontana de 270 almas preserva rituais ancestrais e tradições gastronómicas seculares
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O fumo sobe torto da chaminé, porque o vento de inverno sopra de leste e empurra a fumacinha para o lado da oliveira centenária. Em Cedães, são as colunas de fumo que dizem quem está em casa — se é a D. Rosa que acordou às cinco para atear o lume, ou o Sr. António que anda a fazer lenha desde outubro. Aqui, a 394 metros de altitude, o silêncio é mesmo silêncio: até o ladrar do Pastor parece vir de outra vida.
270 almas distribuídas por 25 km² de terra quente, onde os velhos são 111 e as crianças não chegam para uma equipa de futebol. Mas olhe que na taberna do Zé, às quartas-feiras, ainda se enchem quatro mesas de dominó — e ninguém se queixa da vida, queixam-se é do preço do gasóleo.
Quando a aldeia fica pequena
Dia 26, de manhã, os rapazes já não são rapazes — são caretos de madeira pintada com tinta da Alemanha, porque a de cá não aguenta o suor. Descem da Fonte da Vila com os chocalhos do avô ao peito, e as mulheres fecham as portas à chave porque "aquilo em excesso faz doer a cabeça". Ainda assim, a Ilda deixa sempre um prato de alheira na janela — é tradição, diz ela, mas é também medo do que os espíritos fazem a quem não dá.
No meio da Quaresma, cortam a velha. Não é velha nenhuma — é um boneco de palha vestido com uma saia da D. Amélia que já morreu há vinte anos. Queimam-no na praça e depois vão todos comer migas à moda antiga: pão de ontem, toucinho entornado e um fio de azeite que o filho do Carlos trouxe de Valpaços.
O que a boca aqui conhece
A alheira não é qualquer uma — é das que a Glória fuma na lareira durante três semanas, virando-a de dois em dois dias com a mão que a artrite não lhe tirou. A cor é de mel torrado, o sabor é de fim-de-semana em casa dos avós. No fumeiro, junto com o salpicão que o sogro trouxe de Vinhais, há sempre uma chouriça de carne que ninguém põe no prato — é para o caseiro, quando vem ajudar na apanha da azeitona.
O azeite é do olival da Estrada Nova, aquele que o terremoto de 98 abanou mas não derrubou. Dourado como o trigo de junho, espesso como o mel do xaraz. A azeitona é negrinha de Freixo, mas as talhas de barro são da loiça da avó — têm nódoas negras que ninguém consegue tirar, nem com lixívia.
O que fica quando tudo parte
Há duas casas para quem quer vir ver isto tudo. Não são casas de turismo — são casas de gente, com colchas de retalhos e cheiro a bolacha Maria. A da Rua de Baixo tem a porta que range no sítio exacto onde o neto do Sr. Joaquim pôs o pião, em 1973.
Ao fim da tarde, quando o sol se põe atrás do cabeço, a luz fica tão laranja que até as pedras parecem quentes. A D. Rosa, que já não vê bem, ainda assim conta as galinhas: "A branca, a malhada, a pretinha... falta a Mariquinhas, essa anda sempre atrasada". O sino da igreja toca três vezes, mas ninguém olha para o relógio — olham é para o fumo que agora sobe mais baixo, porque a lenha está a acabar-se.