Artigo completo sobre Lamas de Orelhão: onde o sino marca o tempo no vale
Igreja de Santo Estêvão, pontes medievais e fumeiro transmontano no planalto de Mirandela
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O sino da igreja marca as horas que ninguém verifica. Em Lamas de Orelhão, o tempo mede-se pela luz: rasante nos olivais ao amanhecer, forte nas xistosas ao meio-dia, dourada nos socalcos ao entardecer. Três centenas de pessoas distribuem-se por dois mil hectares de esteva e sobreiro, onde as levadas ainda levam água aos pomares.
A pedra que conta histórias
A Igreja de Santo Estêvão é do séc. XVIII com base medieval. Dentro, o retábulo barroco e os azulejos do mártir. Fora, o cruzeiro manuelino e a torre sineira. A Ponte de Pé de Mula, único arco sobre a Ribeira de Vale de Moinhos, aguenta tráfego local. Nas ruas, capitéis românicos em muros de quintal e a Fonte da Urze com bicas seiscentistas.
Fumeiro, azeite e castanha
Na taberna serve-se alheira grelhada, chouriça estufada com grelos, salpicão cortado à faca. O borrego Terrincho assa em fornos de lenha. Outubro traz castanha à sopa e ao cabrito. Para acabar, pão-de-ló húmido ou doce de abóbora com mel, regado com aguardente de medronho.
Caretos, rapaz e a velha serrada
26 de Dezembro: rapazes cantam janeiras de porta em porta, recebem chouriça e vinho. Dia de Reis: lenhadores serram a belha, partem a lenha para fogueiras. Caretos de tecido colorido perseguem raparigas ao som de gaita. Maio: romaria à Senhora do Viso, sobe-se a pé em silêncio.
Trilhos entre água e pedra
O Caminho do Tua passa por moinhos recuperados e olivais centenários. As levadas medievais ainda deságuam nos tanques. Na ZPE do Vale do Tua, avistam-se gato-bravo e milhafre. Ao amanhecer, ouvem-se melro-preto e pisco-de-peito-ruivo nas levadas.
À noite, no lagar comunitário, corta-se salpicão ao balcão de granito. Passa-se a garrafa de tinto enquanto o pão sai do forno. Ninguém olha para o relógio.