Artigo completo sobre Múrias: Fumeiro, Máscaras e Silêncio no Alto Tâmega
Múrias, em Mirandela, Bragança, preserva rituais de Inverno únicos e o fumeiro tradicional entre casas de pedra e olivais de xisto do Alto Tâmega.
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O som chega antes da imagem: o tilintar do sino da igreja — azeite deita-se —, depois o silêncio que só os vales do Tua sabem fazer. Em Múrias, o ar da manhã traz o fumeiro a acordar: chouriça e salpicão que ainda pingam banha, misturados com a água que sobe da Ribeira de Múrias e com o cheiro a cavalo que o Sr. Zé deixa na porta do café quando amarra o garrano. A luz de Inverno estica as sombras dos olivais sobre os muros de xisto, e o frio morde os tornozelos por baixo das meias de lã. São trezentos metros de altitude, mas a sensação térmica pertence a outra escala: a do corpo que abranda, a do relógio que perde urgência.
Viver entre pedra e memória
Duzentos e quarenta e quatro habitantes, cento e vinte e oito deles acima dos sessenta e cinco anos. Os números dizem o que se vê: a aldeia é um sobreiro que perde a casca devagar. Vinte e dois quilómetros quadrados de relevo suave, parcelários minúsculos, soutos antigos onde ainda se vai buscar castanha a pé. A igreja de S. Tiago tem uma pia baptismal do século XIII que serve agora de vaso a um falso-plátano. A capela de Santo António perdeu o telhado no temporal de 2018; lá dentro, os sineiros guardam ainda os livros de baptismo com letra de esferográfica BIC azul. O património não grita; fica ali, como o banco de pedra onde o Dr. Américo se sentava para ver passar o tempo.
Quando o Inverno traz os rapazes
A Festa dos Rapazes em honra de Santo Estêvão arranca Múrias do silêncio habitual. Dezembro transforma a aldeia: máscaras de tábuas de pinho pintadas de vermelho-e-preto, chocalhos de lata de azeite que se amarram à cintura com arame, vozes roucas que repetem "Ó tio, dê lá um tostãozinho para o menino Santo Estêvão". O ritual — meio sagrado, meio profano — pertence ao ciclo antigo dos solstícios, quando o frio aperta e é preciso afugentar o Inverno com barulho e fogo. Depois, no Carnaval, chega o momento de Serrar a Belha: um boneco de trapos vestido com camisola da Selecção que simboliza o ano velho, serrado em praça pública enquanto se lê o testamento onde se mandam para o "curral dos desgostos" a subida do preço do gasóleo e a falta de médico. O riso ecoa entre as fachadas caiadas, breve mas intenso, antes de o silêncio regressar.
Mesa transmontana sem artifício
Não há restaurantes, mas o café da Dona Alda serve alheira frita com pão de água e ovo escalfado — vai lá terça-feira, é dia de forno. O Sr. Anselmo, na mercearia, tem salpicão que fumou em cima da lareira durante três meses; corta-se à faca e a gordura derrete na língua como manteiga quente. Borrego é só no Natal, vai ao forno de lenha do Zé Mário com batatinhas e salsa da horta. Queijo Terrincho DOP come-se com a casca, porque a Dona Alda diz que "a casca é que lhe dá o jeito". Azeite de Trás-os-Montes DOP é do pomar do Sr. António, que ainda vai lá abaixo de mula. Mel da Terra Quente é do sobrado do Celestino, tão espesso que se corta com fio de guitarra. Cada produto tem denominação de origem, mas o que fica na memória não é o selo: é o sabor a fumo, a banha de porco, a terra que entra pelas solas dos sapatos.
Caminhos que não levam a lado nenhum
Os trilhos de Múrias não estão no Google. Começam no portão do Sr. Joaquim, onde o cão Lobo ladra mas não morde, sobem pela levada que levava água ao moinho do Pintado — hoje só pedras e um cardo gigante. Passam pelo souto da Dona Emília, onde as castanhas caem redondas e se partem com o pé descalço. Não há placas, apenas marcas de burro na lama. Vinte pessoas por quilómetro quadrado — a densidade mais baixa que se pode medir sem desaparecer por completo. Andar aqui é sentir o peso dos próprios passos sobre a terra batida, ouvir a respiração amplificada pelo silêncio, ver a luz mudar de tom à medida que o sol desce atrás dos soutos e o cheiro a esteva aquece.
Ao crepúsculo, o fumo dos fumeiros sobe direito no ar parado, fino como linha de costura, desenhando no céu o mapa invisível das casas ainda habitadas. A Dona Alda fecha o café, o Sr. Zé desce a grade da mercearia, e o sino da igreja dá nove badaladas que se perdem no vale. A aldeia fica pequena, aconchegada nas costas do monte, como um gato que se enrola para dormir.