Artigo completo sobre São Salvador: onde o vento do Tua encontra a Terra Quente
Freguesia transmontana de 200 almas entre olivais, rituais ancestrais e gastronomia certificada
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A porta da igreja range porque dobradiças de ferro precisam de óleo. Lá dentro, o silêncio é o mesmo de sempre — aquele que só existe onde duzentas pessoas se cumprimentam por nome. São Salvador debruça-se sobre o vale do Tua a 340 metros. Alto o suficiente para apanhar o vento, baixo o suficiente para justificar o nome Terra Quente.
O que se come
A freguesia estende-se por 14 km² de encostas viradas a sul. Oliveiras, amendoeiras, vinhas. Trás-os-Montes não é abstracção: é o azeite DOP que escorre da tampa, a Negrinha de Freixo curada em salmoura, o vinho tinto que aquece. A alheira de Mirandela leva pão, alho e carnes fumadas. O salpicão cura em câmaras de granito. O Terrincho tem sabor acre de serra.
Contas feitas
17 miúdos. 71 idosos. 14 habitantes por km². A escola primária fechou há anos. A mercearia abre das 9 às 12. À tarde, só se precisar mesmo.
Dias marcados
Dia 26 de Dezembro, a Festa dos Rapazes traz máscaras de madeira e chocalhos. Antes do cristianismo, sobreviveu porque ninguém se deu ao trabalho de proibir. Em Março, o Serrar da Velha: cortam um boneco de trapos ao meio com serra de madeira. Entre risos e vinho.
O que se produz
Batata de Trás-os-Montes IGP. Mel DOP que cristaliza devagar. Cabrito que pasta até ser assado em forno de lenha, com batatas ao murro. Nada disto está no Instagram. Nem precisa.
Ao cair da tarde, o fumo sobe vertical até o vento o desfazer. Cheira a carvalho e chouriça no fumeiro. Há uma cadeira de plástico encostada a cada porta, virada para a rua — não para vigiar, mas porque é ali que se passa o resto do dia.