Artigo completo sobre Vale de Telhas: granito, fumeiro e memória viva
Freguesia transmontana onde 263 pessoas preservam tradições, produtos DOP e o ritmo lento da terra
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A luz da manhã bate oblíqua sobre os telhados de Vale de Telhas, recortando sombras compridas nas ruas quase vazias. São 263 pessoas distribuídas por 1516 hectares onde o silêncio se mede em passos de vaca, em porta que range, em cão que ladra longe. O granito das casas — o mesmo que veio dos campos à volta — guarda o frio da noite como quem guarda segredo. Às sete da manhã, quando o António abre a porta do café, ainda se vê o hálito das pessoas no ar.
A memória que se come
Vale de Telhas não é folclore. É alheira a estalar na gordura do fumeiro, cheiro que se agarra à roupa. É a Núria que ainda vai à aldeia viz buscar a leiteira para fazer queijo Terrincho — "o leite tem de estar aos trinta e dois, nem um grau mais" — e o Zé Manel que mata o porco em Dezembro quando o tempo "está seco, para o presunto não pegar mau".
Na adega do Sr. Domingos, o vinho tinto de 2019 ainda mora em tonéis de carvalho que o pai comprou ao fabricante de Mogadouro. "Tempo de sobra é o que há cá", diz ele, enquanto serve um golo num copo de rebuçado. A batata de Trás-os-Montes vem das terrinhas de cima, onde a Dona Amélia ainda vai de burro — "o terreno é a pique, máquina não se aguenta".
Rapazes e velhas serradas
A Festa dos Rapazes há-de ser a 26 de Dezembro, chova ou faça sol. Os rapazes — agora com filhos e empregos em Mirandela — voltam na véspera. Ainda se vai casa a casa pedir o "pão-de-ló e um tustiadinho de aguardente" para o cortejo. O "Serrar a Belha" faz-se com a mesma serra de dois homens que o avô do Carlos usava para cortar a lenha. Quando a velha — um gajo vestido de mulher com uma almofada à cintura — cai no chão, as crianças riem-se como se fosse a primeira vez. São poucas, é verdade, mas chegam para encher a igreja ao domingo.
O peso do ar
Às cinco da tarde, quando o sol se põe atrás do Monte do Seminário, o ar fica pesado de cheiro a terra acabada de lavrar. É a hora em que as mulheres saem para regar os canteiros — "águas da fonte, não é essa de torneira que mata as plantas". O sino toca uma vez, como sempre, e as galinhas pombo-correio que o Sr. Joaquim cria sobem para o poleiro.
Na rua de baixo, a casa do Sr. Artur está fechada desde que ele morreu em 2019. A porta trancada, as rosas-brancas cresceram tanto que já abrem janela adentro. Mas ainda se vê a cadeira onde ele se sentava a descascar castanhas, aos domingos, quando as pessoas vinham cá de cima trocar livros na biblioteca — que é só um armário encostado à parede da câmara.