Artigo completo sobre Bemposta: aldeia transmontana entre pedra e cereal
Freguesia de Mogadouro onde o tempo corre ao ritmo das estações e das tradições seculares
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O vento atravessa os campos de cereal como quem passa a mão num gato doméstico — sempre no mesmo sentido, até as espigas se cansarem de lhe dizer "chega". A 690 metros, o planalto não é alto o suficiente para se gabar, mas é o bastante para o mundo lá baixo parecer uma troca de canais na televisão do café. Bemposta não se impõe; vai-se sabendo. Primeiro a torre da igreja, depois o cheiro a broa que escapou do forno, por fim o Zé que acena da porta de casa como se fossemos os primeiros turistas do ano. (Não somos. Foi o mesmo gesto ontem ao Manel e anteontem à vizinha de Vilar de Rei.)
A pedra que já viu de tudo
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção está ali desde que os nossos avós tinham avós. Por dentro, o retábulo é barroco como o guarda-roupa da minha avó: dourado a mais, mas faz parte do conjunto. As capelas lá fora — Santo António, São Sebastião — são do tamanho certo para caber um homem, uma vela e um problema. Os espigueiros ainda servem, só que agora guardam ferramentas e o segredo de onde o Joaquim esconde o bagaço. Os muros de pedra seca são como as conversas no tasco: unem terras, separam vizinhos e de vez em quando desabam para nos lembrar que nada é para sempre.
O calendário que ninguém imprime
Maio é a procissão de Nossa Senhora do Caminho. A fila anda mais devagar que o café com cheirinho ao fim do almoço, mas ninguém se queixa: é o único dia em que o trânsito para de ser uma vaca e duas ovelhas. Em Julho, Santa Ana junta gente suficiente para justificar o aluguer de mais cadeiras do que há na sede da Junta. O caldeireiro vem de fora, serve-se em pratos de barro e quando a broa acaba, acabou — não há festival de pastéis de nata para colmatar. Em Dezembro, a matança do porco ainda é um banco de horas colectivo: cada um ajuda o outro, garantindo que em Janeiro toda a gente tem linguiça com tábua e vinho para esquecer o frio.
Na mesa, a conta é sempre zero
O cabrito vai ao forno às sete da manhã, sai à uma. A pele estala como conversa de quem não tem televisão. O Terrincho é daqueles que, se lhe pedires "mais um bocadinho", o António corta logo um quarto — é preciso é ter pão para aguentar. Posta mirandesa mal-passada é para turista; aqui pede-se "no ponto do costume", ou seja, a olhar para o fogo até o bicho se arrepender de ter nascido. O vinho é servido em jarra de barro: se pedires garrafa, perdes o direito a segunda travessa. O bolo de nozes fecha o assunto; não há sobremesas de colher, porque as colheres são para os netos brincarem.
O Douro que não aparece nos cartões
Segue-se a estrada de Maçãs abaixo. Três curvas depois do cemitério, o grifo aparece sempre no mesmo lugar — deve ter alugado o poleiro. O trilho dos caminhos de pastor é largo para um homem e meio; serve para levar as vacas, trazer lenha e desistir do ginásio. Ao fim de quarenta minutos chegas ao Rio Maçãs. Não há bar, não há praia, mas o silêncio é de borla e o vento traz cheiro a esteva que nenhum aromatizante conseguiu imitar.
À hora do lusco-fusco, o fumo das chaminés sobe direito como pergunta sem resposta. São 497 pessoas espalhadas por 38 quilómetros quadrados: dá para cumprimentar toda a gente numa tarde de domingo e ainda sobra tempo para jogar um sueca. O forno comunitário arrefece aos poucos; o tijolo guarda o calor como segredo de família. Amanhã há outra fornada, a mesma conversa, o mesmo pão. E assim vai Bemposta — sem pressa, sem filtros, sem obrigação de gostar. Se gostar, sente-se. O café abre às sete.