Artigo completo sobre Bruçó: espigueiros de xisto e borrego no forno comunitário
Aldeia em Mogadouro preserva 30 espigueiros centenários e tradições gastronómicas da serra transmont
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O fumo da lenha sobe direito no ar parado de manhã — não é só de Setembro, é sempre assim quando o tempo fecha. Nas traseiras da casa do Zé Mário, três mulheres preparam o borrego para o forno comunitário: a Maria da Cuca tempura a carne com alho de apertar na prensa de ferro, o louro vem do pé que cresce atrás da cisterna, o vinho é da garrafa que o filho trouxe do Marco. Bruçó acorda aos poucos, 722 metros acima do mar, entre a serra que corta o céu e a ribeira que leva o nome da aldeia mas quase nunca tem água.
O mato que virou aldeia
Dizem que Bruçó vem de brutium — matagal — e é verdade que a urze ainda domina os soutos. Nas Inquirições de 1258 já cá estávamos, no julgado de Santa Cruz da Vilariça, depois nas mãos dos Braganças. Sobreviveu o essencial: a igreja com o teto de madeira a estalar no inverno, os azulejos do evangelho que o padre António limpa com água e vinagre para tirar a fuligem das velas. A Capela de Santa Ana, lá em cima, foi onde o meu avô se refugiou quando a neve de 54 cortou a estrada durante uma semana.
Trinta espigueiros de xisto
São trinta e dois, não trinta — contei-os no outro dia. O do Toninho tem 184 anos, diz a tia Albertina que tem memória de ele já estar velho quando ela tinha dez. As ripas deixam passar o vento de tal forma que o milho seca até em Janeiro, quando tudo o resto é molhado. Junto à capela, o espigueiro comunitário foi o primeiro a ser recuperado — agora serve para mostrar aos miúdos da escola como se debulhava com o mangual, mas nenhum deles tem paciência para estar ali mais de cinco minutos.
A mesa que a serra dá
A Festa de Nossa Senhora do Caminho é quando a aldeia duplica de tamanho. O borrego vai para o forno às cinco da manhã, o Zé Mário regula a lenha de duas em duas horas. A pele tem de estalar mesmo, senão as mulheres dizem que não está no ponto. Há alheira de javali do Joaquim — ele é o único que ainda vai ao mato — e chouriço do porco que o Zé do Telhado abateu em casa. As migas são de pão de milho da Ana, que mói no moinho do irmão porque o dela partiu há dois anos. O queijo Terrincho vem do caseiro da aldeia ao lado, mas o mel é nosso — o António da Bemposta tem colmeias na encosta sul, onde o sol aquece primeiro.
O trilho e o poço que não seca
O trilho começa mesmo atrás da igreja, subindo entre os castanheiros do João Português. São oito quilómetros até Sendim, mas a maioria desiste no poço — ali bebe-se água que sabe a xisto e a musgo, fresca mesmo em Agosto quando as ribeiras são só pedra. O grifo já não aparece há dois anos, mas os abutres ainda fazem rodopios quando há cadáver. O pior é a subida final: os turistas queixam-se, mas é porque não sabem que há atalho pela levada que o Velho do Telhado abriu com a enxada em 73.
Na mercearia, a D. Fernanda abre às nove e meia — "ou quando acabar de ver o programa" — e fecha para almoçar. Vende queijo embrulhado em papel do pão, o mesmo que usa para os pacotes de tabaco. Lá fora, o sino toca às horas certas, mas às vezes esquece-se quando o padre vai a Mogadouro. O som sobe a encosta abaixo, perde-se nas urzes, e ninguém estranha o silêncio que vem depois.