Artigo completo sobre Brunhozinho, Castanheira e Sanhoane: três aldeias unidas
Território de xisto e granito no Parque Natural do Douro Internacional, com sabores transmontanos
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O vento entre os castanheiros antigos é como o velho António que ainda vai à padaria: conhece todos os cantos e não perde uma oportunidade de levantar alguma coisa. No largo de Castanheira, a porta da Celeste range tanto que já serviu de despertador a meia aldeia — abre-se devagar, como quem não quer acordar o silêncio que por aqui dorme soundly. São 216 almas, mas conte-se às dezenas se for no Inverno. Uns tantos têm mais de 65 e ainda pastam ovelhas como quem mexe no comando da televisão: parece que não, mas já lá vão décadas de prática.
Três aldeias, um território
Brunhozinho, Castanheira e Sanhoane juntaram-se em 2013 por conveniência administrativa, mas o pessoal continua a dizer "vou a Castanheira" ou "desço a Sanhoane" como se fossem mundos diferentes. O nome Sanhoane até pode ser de suevo, visigodo ou extraterrestre — ninguém aqui perde tempo nessas certezas. Castanheira tem o que promete: castanheiros que, no outono, deixam a rua escorregadia como pista de gelo. Brunhozinho, esse, é o Benfica da neblina: quando o resto do concelho está limpo, lá vem ela subindo como champô mal enxaguado. Dos 216 habitantes, os 98 mais velhos é que sabem como se faz o linho pegar na terra e como se vai à feira de Mogadouro sem apanhar borla de chuva.
A mesa transmontana
Entre tachos de ferro e fornos de lenha, a comida faz-se sem pressa — até porque o forno demora o seu tempo a aquecer, como o Zé do Merendas depois do almoço. Borrego Terrincho, cabrito, mirandesa: carnes que não pedem molho complicado, só alho, orégãos e azeite que a primavera já habituou ao travo forte. O presunto de Vinhais fica a dormir no fumeiro mais tempo que muitos netos na cidade; quando se corta, é fino como promessa política, mas cumpre sempre. Acompanha-se com pão que a D. Rosa amassa ainda de noite, queijo Terrincho que se deixa na tostadeira do tempo e, para terminar, um fio de mel da Terra Quente que adoça mais que conversa de namorados. Vinho tinto? É do quintal, servido em copos pequenos para não se perder o equilíbrio — ou a compostura.
Dentro do Parque Natural
A freguesia está dentro do Parque Natural do Douro Internacional, o que quer dizer que o postal é grátis: grifões giram como se estivessem a testar a vista, águias-reais observam de cima como os velhos na esplanada. O xisto e o granito disputam o espaço às urzes, e o cheiro de esteva bate tanto que até afasta saudades. Seguir os trilhos é como ouvir a história do avô: sobe-se, desce-se, volta-se, mas no fim aprende-se o caminho. Leve água, leve capa e não confie no GPS — por aqui até o Google se perde nas curvas.
Romarias e bailaricos
Em Agosto trazem-se os santos à rua, os bombos e as concertinas. Nossa Senhora do Caminho e Santa Ana são desculpa para juntar o pessoo, como diz o padre. Há procissão, há cântico e, depois, o arraial onde se prova o assado antes que esfrie — prioridades. Os mais novos aprendem o passo-pequeno na terra batida, os mais velhos lembram-se do tempo em que se vinha a pé de Fornos de Algodres e se dançava até a garrafa do garrafão acabar. Ainda hoje se faz caminho, mas agora há carrinhas e se regressa a casa a tempo do telejornal.
Quando o sol se põe e a loura das fachadas fica cor de mel estalado, toca-se a ave-maria. O sino deita o som abaixo do vale, sobe outra vez, e fica lá no ar, a oscilar como a folha que ainda não decidiu onde cair. É sinal de que o dia acabou — ou de que a próxima história vai começar.