Artigo completo sobre Castelo Branco: pedra medieval e fornos vivos em Mogadouro
Castelo Branco, em Mogadouro, Bragança, preserva vestígios de fortaleza medieval, forno comunitário activo e tradições de pastorícia na Terra Quente transm
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O fumo da lareira sobe lento entre as casas de xisto escuro, carregando o cheiro a lenha de azinho e a chouriça de boi que ainda hoje pendura nos fumeiros. Nas ruas de Castelo Branco, o vento do planalto mirandês entra frio pelas vielas estreitas, trazendo o silêncio denso da Terra Quente. A 499 metros de altitude e a 12 quilómetros do Douro Internacional, o território respira com a cadência das estações — lento no inverno, abrasado no verão, sempre fiel ao ritmo da pastorícia e do pão de centeio que ainda se faz no forno comunitário.
Ruínas que batizam o lugar
O castelo que deu nome à freguesia nunca foi uma fortaleza de pedra branca. Os vestígios que restam — muros de xisto de um tardo-medieval, talvez torre de menagem do séc. XIII — espalham-se pelo cabeço a norte da aldeia, onde se avistava a estrada que ligava Mogadouro a Miranda do Douro. O "branco" do topónimo provém do calcário que os pastores extraíam nas pedreiras da Serra de Mogadouro para calar paredes e marcar gado, não das muralhas. Hoje, os blocos calcários dispersos continuam a reflectir a luz da manhã, mas ninguém os confunde com ruínas nobres.
A igreja matriz de Nossa Senhora do Caminho foi reconstruída em 1865 depois do terramoto de 1855; perdeu o altar-mor manuelino, ganhou uma cornija lisa e uma porta lateral que dá directamente para o adro onde se mata o porco. Ao lado, a capela de Santa Ana, do séc. XVIII, acolhe a 26 de Julho os romeiros vindos de Brunhoso e de Vale de Porco. Acendem-se fogueiras com lenha de sobreiro, serve-se caldo de casulas com toucinho e bebe-se vinho tinto da cooperativa de Vilar de Maçada. Em Maio, a procissão de Nossa Senhora do Caminho desce às 16h00 da igreja, segue pela Rua de Baixo onde ainda moram duas das três famílias que têm burros, e termina no adro com arraial de posta mirandesa grelhada sobre grades de ferro, não sobre brasas — a vinha morreu com a regra do baremo.
Pão, pedra e transumância
O forno comunitário de Castelo Branco acende-se às quartas-feiras ímpares, quando há lua crescente e quando dona Amélia (n. 1947) decide que "a farinha está boa". A cúpula de xisto aquece durante três horas com lenha de azinho; os pães de centeio entram às 7h00 e saem às 9h30 com a crosta quebradiça que os homens levam para a apanha da azeitona em Torre de Moncorvo. É o único forno activo do concelho que ainda cobra por pão: 1,20 € cada, 0,80 € se levar farinha de casa. Dos 330 residentes, 176 têm mais de 65 anos; a junta de freguesia comprou um micro-ônibus em 2019 para os transportar ao Centro de Saúde de Mogadouro às terças e sextas.
Os muros de pedra seca que sobem da estrada municipal 525 até ao lugar de Cimo de Vila foram levantados entre 1920 e 1960 por três gerações da família Carvalhal. Não há soutos — o castanheiro só aguenta a 700 m. O trilho de Castelo Branco a Brunhoso (PR3) passa por um espigueiro de quatro pés, propriedade da cooperativa agrícola extinta em 1984, onde ainda se guarda a última debulhadora de tracção animal do concelho.
Arribas, grifos e o Douro selvagem
A 8 km, o miradouro de Picões é acessível por uma estradão de calçada romana reabilitada em 2011 pelo Parque Natural do Douro Internacional. A plataforma de madeira está a 570 m de altitude e permite ver o Douro a 250 m abaixo, exactamente na cotovela onde o rio entra em território espanhol. Os grifos nidificam nas fendas do granito desde 1993; há agora quatro casais. A águia-de-Bonelli regressou em 2008, mas só aninhou do lado espanhol. O posto de observação tem um caderno de campo onde o último registo é de 23 grifos a 15 de Outubro de 2023.
Na tasquinha "O Cantinho", aberta só ao fim-de-semana, serve-se alheira de Mirandela com grelos salgados (8 €), migas de batata com couve-moura (6 €) e sopa de castanha fumegante entre Outubro e Dezembro. Os enchidos vêm da fumeira do Zé Mário, que mata ao São Martinho e fuma ao salgueiro durante 30 dias. O doce de abóbora é da receita da irmandade de Santa Ana: 1 kg de abóbora menina, 750 g de açúcar, 1 pau de canela e 3 cravinhos, tudo em lume brando durante duas horas. A aguardente de medronho é de alambique de cobre, 48 % vol., destilada em Vale de Porco e engarrafada em garrafões de 5 litros que custam 35 €.
Ao entardecer, quando os grifos regressam às arribas e o vento frio desce do planalto, o fumo sobe outra vez das chaminés de xisto. O cheiro a lenha mistura-se com o silêncio da pedra e o eco distante do sino da igreja, que toca às 19h00 para o terço — som que atravessa o vale e fixa na memória a textura áspera de uma aldeia onde, em 2021, nasceram dois bebés e morreram sete pessoas.