Artigo completo sobre Castro Vicente: aldeia de altitude e oito sabores DOP
Planalto mirandês a 558 metros onde a tradição agro-pastoril resiste em 34 quilómetros quadrados
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O silêncio em Castro Vicente tem peso. Chega-se por uma estrada que parece nunca mais acabar, entre olivais que nem o tempo ousou tocar e soutos onde os carvalhos ainda acreditam que são donos disto tudo. A aldeia aguenta-se nos 558 metros de altitude como quem diz "chega" ao resto do mundo - e os 265 habitantes perceberam esta língua há muito tempo. É falar baixo, abrir a porta devagar, não fazer ondas.
Planalto de pedra e vento
O nome diz castro, mas ninguém aqui te garante que houve castelo ou qualquer coisa que se parecesse. Pode ter sido só um Vicente qualquer que, como toda a gente, deixou o nome pela porta ao sair. O que é certo é que o terreno ondulado e os xistos escuros a flor da pele dizem que aqui se vem para ver, não para ser visto. A história? Escreve-se em camadas de silêncio, como o queijo que se faz nas caves - quanto mais tempo, mais sabor.
Inventário de sabores protegidos
Aqui há uma coisa curiosa: em 34 quilómetros quadrados cabem oito produtos com selo DOP ou IGP. É como se cada aldeia tivesse a sua estrela Michelin, mas em vez de estrelas, tem borrego Terrincho e azeite que faz chorar um italiano. Na Tasquinha do Zezé - que é a única que abre de segunda a sábado - a chanfana vem na panela de barro de três gerações. O segredo? "É fazer como se não houvesse amanhã, mas com calma", diz a dona, enquanto serve o queijo com mel que parece ouro de tolo, mas é mesmo ouro.
Romarias e calendário rural
Julho é Santa Ana, Setembro é Nossa Senhora do Caminho. É a mesma coisa todos os anos e, no entanto, ninguém se cansa. Os dezoito jovens que ainda cá andam encontram-se com os cento e tal idosos no adro, e por umas horas a aldeia engorda de gente. O vinho Bastardo - sim, é mesmo o nome - corre que nem água, o pão de milho parte-se à mão e as histórias repetem-se como rezas. Mas é preciso: alguém tem de contar como foi, senão um dia deixa de ter sido.
Parque Natural do Douro Internacional
O parque começa onde a aldeia acaba - ou será ao contrário? Os trilhos são aqueles que os pastores fazem porque sim, não porque um mapa mandou. Lá em baixo, o Sabor guarda segredos que nem o Douro ousa perguntar. Ao fim da tarde, quando o sol se põe como quem se despede sem saber se volta, os abutres desenham círculos no céu - é o sinal de que o dia fechou bem, com a morte no seu sítio e a vida no dela.
Há três casas de turismo rural. São casas de família que se renderam ao tempo, mas não perderam a alma. Não há televisão, não há Wi-Fi, não há desculpas. Há escuridão a valer, estrelas que parecem de mentira e o silêncio que, afinal, não é silêncio nenhum - é só a ausência do barulho dos outros.
Vá. Leve o casaco, mesmo em agosto. E leve tempo - que aqui não se compra, mas ganha-se.