Artigo completo sobre Meirinhos: lagar de 1793 e mirandês vivo na serra
Conheça Meirinhos em Mogadouro, Bragança: lagar histórico de 1793, maior comunidade de falantes de mirandês e gastronomia transmontana autêntica.
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O cheiro a fumo de lenha e azeite novo escorre pelas ruelas de Meirinhos antes do sol nascer. No lagar comunitário, o mesmo mecanismo de madeira que trabalha desde 1793 range baixo, esmagando azeitonas colhidas na véspera. O vapor condensa-se nas paredes de xisto, e alguém já cortou fatias de broa de milho para molhar no azeite — verde, espesso, que arde na garganta como aguardente.
Pedra que fala
A Igreja Matriz de São Vicente ergue-se no centro com o seu retábulo barroco, mas é o pelourinho de granito — o único ainda de pé em Mogadouro, de 1542 — que marca onde Meirinhos começou. O nome vem do latim meirinhus, pequeno mercado, e a função mantém-se: aqui cruzavam-se rotas de gado e sal entre o reino e Castela. A ponte medieval de um arco sobre o Ribeiro de Meirinhos ainda guarda a memória dessa geografia comercial, com os paralelepípedos desgastados pelos cascos das mulas. Na Casa do Brasão, a pedra de armas lavrada na fachada reflecte o sol da tarde, enquanto os cruzeiros espalhados pelos caminhos rurais orientam quem sobe à Serra da Vila.
Mirandês que resiste
Meirinhos é a freguesia do distrito de Bragança com mais falantes de mirandês em casa. Ao entardecer, os mais velhos reúnem-se nos adros para cantar o fado mirandês ao som da viola braguesa — modas que falam de emigração, de colheitas, de amores antigos. Maria da Conceição Azevedo, primeira mulher eleita para a Junta de Freguesia em 1977, ainda é lembrada nas conversas. Quando chega a noite de 5 para 6 de Janeiro, os grupos de máscaros percorrem as ruas entoando as Janeiras, recebendo bolos e aguardente em cada soleira.
À mesa, a Terra Quente
A posta mirandesa cheira à lenha de carvalho quando chega à mesa, acompanhada de batatas e grelos salteados em azeite novo. Nos domingos, os fornos de lenha aquecem para o borrego terrincho ou o cabrito transmontano guisado em vinho tinto com alho e pimentão. Na Ceia das Chouriças, a 23 de Janeiro, vizinhos reúnem-se para assar enchidos defumados em chaminés de xisto — alheira, chouriça de carne, salpicão — celebrando São Vicente com vinho tinto da casta Bastardo.
Sabor e silêncio
A oeste, o Parque Natural do Douro Internacional desenha a linha de fronteira. A albufeira do Sabor alargou o horizonte, trazendo uma marina fluvial de onde partem barcos para pesca desportiva. O Trilho dos Moinhos liga cinco moinhos de água restaurados ao longo de oito quilómetros onde só se ouve o ribeiro e o vento na carqueja. Nos miradouros da Serra da Vila, abutres-do-egipto planam sobre o cânion enquanto o telescópio fornecido pelo posto de turismo de Mogadouro revela águias-de-asa-redonda pousadas em sobreiros.
No cemitério, uma sepultura de soldado britânico da Guerra Peninsular, tombado em 1811, recolhe flores silvestres. À noite, o céu classificado como Dark Sky Aldeias acende-se sem competição — só estrelas, o ladrar distante de um cão, e o eco da prensa de madeira no lagar a preparar mais um ano de azeite.