Artigo completo sobre Mogadouro: Castelo, Caretos e Paisagem Transmontana
União de freguesias entre a torre medieval e as tradições dos chocalheiros de Vale de Porco
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O granito do Castelo de Mogadouro queima aos poucos sob o sol da tarde, enquanto o vento que desce do vale traz o cheiro da lenha que se queima nas cozinhas — um fumo doce que se agarra à roupa e à memória. Lá em baixo, as ruas da vila respiram o ritmo lento de uma sexta-feira sem pressa: a porta do Café Regional entreaberta, o murmúrio das senhoras que esperam a vez na papelaria, o sino da Igreja Matriz que bate as horas como quem bate à porta de um vizinho. A 728 metros de altitude, no coração de Trás-os-Montes, esta união de freguesias — Mogadouro, Valverde, Vale de Porco e Vilar de Rei — ainda se organiza pelos ecos que os muros guardam, mesmo que muitos deles agora estejem vazios.
Entre a torre e a serra
A torre de menagem do castelo, erguida entre 1165 e 1175, corta o céu como um osso queimado. Foi aqui que D. Afonso III concedeu foral à vila em 1272, mas a força que hoje se sente não está nos livros — está na pedra que se solta aos bocados, no frio que sobe dos cantos, na vista que se perde nos Picos de Mogadouro, aqueles dentes de rocha que parecem morder o céu. Do Miradouro de São Cristóvão, a serra desdobra-se em camadas de xisto e terra vermelha, onde as amendoeiras se agarram como podem e os olivais descem em socalcos até ao Douro Internacional, lá longe, como uma ferida escura.
Quatro aldeias, uma só respiração
Valverde guarda a sua igreja manuelina e um silêncio que só é quebrado quando o tractor do Zé Manel passa às sete da manhã. Vale de Porco tem a praia fluvial onde os miúdos se atiram de pontes improvisadas e os caretos que saem à rua entre o Natal e o Ano Novo, cobertos de colchas da avó e chocalhos que soam como trovão nos dentes. A Festa do "Chocalheiro" é um murro no ar gelado de janeiro, onde o corpo se move ao ritmo de uma percussão que vem dos tempos em que o inverno era uma ameaça. Vilar de Rei, com a sua igreja barroca e o castelo em ruínas que os velhos ainda chamam de "a fortaleza", completa o mosaico de uma freguesia que, apesar da junção administrativa de 2013, ainda respira pelos pulmões de quatro comunidades que se conhecem todas. A densidade populacional de 35 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em silêncio — muito silêncio — entre as casas que resistem.
A mesa que a terra dita
A posta mirandesa cheira a fumeiro e a terra molhada, com o peso da vaca que pastou onde lhe apeteceu, acompanhada de batatas que se partem com a mão e molham no azeite que o Joaquim faz na aldeia ao lado. O cabrito assa devagar no forno de lenha, enquanto o fumeiro deixa escorrer a gordura dos chouriços que a Maria guarda para o filho que vem do Porto. Em Vale de Porco, os pratos de caça — lebre estufada, perdiz com arroz, javali com batatas — aparecem nas mesas de domingo, cozinhados com vinho da terra e um ramo de cheiros que cada casa guarda no quintal. O queijo Terrincho, feito com leite de ovelha churra, tem uma crosta dura e um interior que se derrete na boca, pedindo um naco de pão de centeio e um copo de tinto que faça caretas. O mel da Terra Quente adoça os doces que ainda se fazem em Valverde — os suspiros, os bolos de azeite, os pastéis de leite — receitas que atravessaram séculos sem pressa, guardadas em cadernos de couro.
Onde o calendário ainda tem sentido
A Festa de Nossa Senhora do Caminho, no último domingo de agosto, enche Mogadouro de gente que se encontra sem marcar, de castanhas assadas que queimam a ponta dos dedos, de vinho tinto que se bebe em copos de plástico. A Festa de Santa Ana, no segundo domingo de julho, traz procissões que param o trânsito e ranchos folclóricos que fazem a praça tremer até as tantas. São momentos em que a freguesia se reconhece no espelho — quando os 3603 habitantes — 1031 deles com mais de 65 anos — se juntam para celebrar o que sempre celebraram, mesmo que agora muitos venham de fora, de regresso à terra que os viu nascer. A taxa de participação eleitoral, que ultrapassa os 65%, é outro indicador de uma comunidade que ainda acredita na palavra dita na porta do café, no aperto de mão que vale mais que um papel.
No limite do Douro Internacional
O Parque Natural do Douro Internacional começa onde a estrada acaba, protegendo falésias onde os grifos nidificam em pares que voltam todos os anos, vales onde o rio corre fundo e escuro como se soubesse segredos. Os trilhos rurais que sobem à serra de Zava e à serra do Penedo são caminhos de xisto e urze, onde o silêncio só é quebrado pelo estalar de uma pedra solta ou pelo voo rápido de uma águia-real. A paisagem muda conforme a estação: verde intenço na primavera, quando as amendoeiras floriram e a terra parece querer parir; dourada no verão, quando o sol queima tudo; ocre no outono, quando as folhas caem e os caçadores preparam as espingardas. Os 16 alojamentos disponíveis — entre casas de xisto recuperadas, quartos com vista para o castelo e estabelecimentos que ainda cheiram a moth — oferecem base para quem quer explorar sem pressa, para quem vem buscar o silêncio que não se encontra em mais lado nenhum.
Ao fim da tarde, quando o sol se põe atrás da torre e as sombras se alongam nas ruas de Mogadouro, o som dos chocalhos ainda ecoa na memória — não os de agora, mas os de janeiro, quando os caretos dançam no frio que corta a pele e o inverno se despede com um estrondo que faz tremer as janelas das casas vazias.