Artigo completo sobre São Martinho do Peso: aldeia de xisto no planalto transmonta
Freguesia de Mogadouro a 609 metros de altitude, entre oliveiras centenárias e muros de pedra seca
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino da torre toca três pancadas curtas, depois silêncio. Mais três. É o código que todos conhecem em São Martinho do Peso: a campa pequena anuncia a partida de alguém, e o número de toques revela a idade. Nas ruas vazias, o som ressoa contra as fachadas de xisto e escorre pelo vale até se perder nos bosques de carvalho-alvarinho. Aqui, a 609 metros de altitude, o calendário ainda se mede em vindimas, magustos e romarias — e a população de 255 almas quase triplica quando, no verão, os emigrantes da França e da Suíça regressam às casas de pedra com pias senhoriais gravadas nos umbrais.
Onde o xisto encontra o Douro
A freguesia estende-se por um planalto ondulado de xistos e grauvaques, cortado por ribeiros que descem até ao Sabor. Integrada no Parque Natural do Douro Internacional, guarda nas suas encostas oliveiras centenárias — uma delas, no lugar de Vilar, tem mais de oito metros de perímetro e ainda produz azeitona para o azeite DOP de Trás-os-Montes. Os muros de pedra seca estruturam a paisagem como costuras irregulares, ladeados por espigueiros de madeira gretada pelo tempo. Um deles, comunitário e de quatro andares, ergue-se no centro da aldeia como testemunho de uma economia agrícola que já não volta.
Barroco e pedra no interior da igreja
A Igreja Paroquial de São Martinho abre as portas pesadas de carvalho para uma nave única onde a luz entra filtrada pelas janelas altas. O retábulo-mor, talhado e policromado no século XVIII, cobre a parede de fundo com anjos dourados e volutas barrocas. Mais acima, no monte, a Capela de Santa Ana aguarda a romaria de 26 de julho: caminhada desde a aldeia, almoço campestre à sombra dos carvalhos, bailarico ao som de concertinas. Nas encruzilhadas dos caminhos, cruzeiros de granito marcam as antigas rotas de peregrinação e os limites entre propriedades.
Fumeiro, queijo e o sabor da Terra Quente
Na tasquinha da Maria do Carmo, o fumeiro pende do teto: chouriços de carne, alheiras, linguiças escuras pelo fumo de lenha de carvalho. A posta mirandesa chega à grelha ainda com o calor do dia, acompanhada de batatas assadas no forno a lenha. O borrego Terrincho DOP assa devagar, regado a azeite local, enquanto o queijo Terrincho envelhece em prateleiras de madeira, coberto por uma crosta amarelada. Ao fundo da mesa, aguardente de medronho e vinho da casta Bastardo, prensado no lagar comunitário do lugar de Fonte Longa que ainda funciona em outubro, quando o cheiro a mosto adocicado invade as ruas.
Trilhos, aves e céus escuros
O Trilho dos Miradouros desenrola-se por seis quilómetros de subidas suaves até à Fraga do Martinho, onde o olhar se perde nas arribas do Douro e no voo planado dos grifos. Mais abaixo, no bosque de carvalhos junto à ribeira, o silêncio é denso, cortado apenas pelo farfalhar das folhas secas e pelo murmúrio da água sobre seixos redondos. À noite, longe de qualquer poluição luminosa, o céu transmontano abre-se constelado — e há quem organize sessões de observação com telescópio, aproveitando a escuridão absoluta que aqui ainda resiste.
No dia de São Martinho, quando as castanhas estoiram no lume e o vinho novo corre pelas canecas de barro, o fumo das fogueiras sobe vertical no ar frio de novembro e demora a dissipar-se.