Artigo completo sobre Vale da Madre: Altitude, Silêncio e Granito Transmontano
Freguesia de 165 habitantes a 705 metros, entre lameiros verdes e os horizontes do Douro Internacion
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O silêncio em Vale da Madre é daqueles que se ouve. É como quando o café fecha e ainda ficam os copos vazios na mesa — só que aqui o copo é um vale inteiro. Dizem que são 165 almas, mas na sexta-feira à noite parecem 15. A 705 metros de altitude, o vento vem de Espanha sem pedir licença e leva as conversas pelos ares antes de terminarem.
Terra Quente, tempo lento
Dizem que isto é Terra Quente mas enganam-se. Vá lá, talvez em Agosto quando o xisto ferve sob os pés. O resto do ano é o tempo a levar-nos o juízo, devagarinho, como o fumeiro a curar o presunto. São 14 pessoas por quilómetro quadrado, o que dá para cada um ter um campo de futebol só seu — mas aqui joga-se sozinho.
A igreja toca às nove para a missa. O sino tem voz de quem fumou muitos anos e agora quer ser ouvido. Quando toca, as cães ladram em coro como se fossem o coro gospel da aldeia. As ruas estão mais vazias que a pastelaria de Mogadouro ao domingo à tarde.
O que se come (e bebe)
O Borrego Terrincho é daqui como o Zidane é de Marselha — já nasce com estrela. Pasta nas encostas que nem um turista alemão no Gerês, e sabe a isso mesmo: a mato, a vento, a tempo. A Carne Mirandesa não é para veganos nem para pressas. Demora o seu tempo, como nós.
O azeite é tão denso que se lhe puser um dedo, fica o sítio marcado como carimbo no bilhete de identidade. E o mel... ah, o mel. É escuro como a cerveja que o António bebe no Céu (descanse em paz) e tem aquele travo que faz os dentes ranger — é o tomilho a lembrar-nos que isto ainda é Trás-os-Montes, não é o Minho das baby-showers.
Festas e outros dias
Em Agosto, a aldeia enche-se. É como quando o Benfica joga na TV e toda a gente diz que tem um primo que foi colega do avô do treinador — aparecem primos que ninguém sabia que existiam. A Festa de Nossa Senhora do Caminho é isso mesmo: o caminho de volta para quem se foi embora. Durante três dias, o silêncio vai para a casa de banho fumar um cigarro.
Há um monumento classificado, dizem. É uma casa qualquer com uma placa que ninguém lê. A pedra está lá, como o Zé do café que está no balcão desde 1973 — testemunha silenciosa de muitas promessas de regresso.
Quando o sol se põe atrás da serra, a luz é tão dourada que parece que alguém deitou azeite novo no céu. O fumo sobe direito das chaminés — é a Maria a fazer o jantar, ou talvez o Manuel a queimar os ramos da poda. Não há distinção. É tudo Vale da Madre, onde o tempo não passa: é nós que passamos por ele, mais depressa do que queríamos, mais devagar do que precisávamos.