Artigo completo sobre Açoreira: pomares de amêndoa na Terra Quente transmontana
Freguesia de Torre de Moncorvo onde a amendoeira domina o planalto e o xisto guarda o calor do dia
Ocultar artigo Ler artigo completo
O cheiro a amêndoa torrada chega antes da vista alcançar os pomares. Açoreira estende-se num planalto baixo, a 240 metros de altitude, onde a Terra Quente transmontana amacia o rigor da montanha e deixa crescer amendoeiras em filas que obedecem às curvas de nível. O xisto aflora entre as raízes, escuro e anguloso, guardando o calor do dia até bem depois do sol descer atrás das cumeadas. Trezentos e quarenta habitantes repartem-se por 2.125 hectares onde o silêncio pesa e cada casa parece uma pontuação distante na frase da paisagem.
Território de amêndoa e mel
A freguesia integra a área classificada pela UNESCO como Alto Douro Vinhateiro, mas aqui a vinha cede protagonismo à amendoeira. A Amêndoa Coberta de Moncorvo e a Amêndoa Douro, ambas com DOP desde 1996, nascem nestas encostas calcárias onde o Verão passa os 40°C e o Inverno ronda os 5°C. A floração, entre 20 de Janeiro e 15 de Fevereiro, tinge os campos de branco e rosa antes de qualquer outra cultura acordar. O Mel da Terra Quente DOP, produzido nos apiários dispersos, é denso e âmbar com notas de rosmaninho e esteva - plantas que só crescem entre os 200 e os 400 metros de altitude.
Nos cafés da vila serve-se toucinho-do-céu de amêndoa, receita que chegou com as freiras clarissas no século XVIII. O Azeite de Trás-os-Montes DOP tempera o Cabrito Transmontano IGP e o Borrego Terrincho DOP, ambos criados em pastoreio extensivo nas encostas pedregosas. Nos fumeiros pendem o Presunto de Vinhais DOP, o Salpicão e a Chouriça de Carne - enchidos que exigem o frio seco de Janeiro e a paciência de quem sabe esperar até Agosto. O Queijo Terrincho DOP e o Queijo de Cabra Transmontano completam uma despensa que não deve nada ao acaso.
Calendário de devoção
A Festa da Páscoa marca o início das celebrações com as matanças do porco ainda em curso. A 15 de Agosto, a Festa da Vila e do Concelho em honra de Nossa Senhora da Assunção multiplica a população durante três dias. A procissão sai da Igreja Matriz às 17h00, desce a Rua da Igreja e sobe o Largo do Adro onde os velhos guardam lugares desde as 15h00. A banda filarmónica toca marchas de Domingos Semedo, compositor nascido em Açoreira em 1892.
A Festa de Nossa Senhora do Amparo, em Felgar a 2 km, atrai gente de Açoreira no segundo domingo de Setembro. Os Romeiros percorrem a pé os caminhos de terra que ligam as duas freguesias, tradição que se mantém desde 1853 quando a imagem da santa terá chorado lágrimas de sangue.
Lentidão sem pressa
Com apenas 16 jovens até 14 anos e 148 idosos com mais de 65, Açoreira vive um presente esticado onde os gestos quotidianos seguem ritmos agrícolas e litúrgicos. O único café, "O Adro", abre às 7h00 quando o Sr. Arnaldo levanta a metalústica e fecha às 20h00 com a televisão sempre no canal regional. Os três alojamentos locais - Casa do Forno, Casa da Amendoeira e Quinta do Pinhal - têm ocupação máxima de 12 pessoas, número que a freguesia considera "muita gente".
O vento da tarde levanta o pó dos caminhos de terra que ligam Açoreira a Felgar e traz o tinir das campainhas das cabras que pastam nos baldios. Ao longe, uma nuvem de poeira marca a passagem do tractor do Sr. Joaquim, único agricultor que ainda planta centeio para pão de lavoura. O som desaparece devagar, engolido pela imensidão, e o que fica é o zumbido grave das abelhas nos pomares - trabalho silencioso que, tal como a própria freguesia, não precisa de palco para continuar.