Artigo completo sobre Adeganha e Cardanha: vinhas e amendoeiras na Terra Quente
Duas aldeias unidas por seis mil hectares de xisto, olivais centenários e silêncio transmontano
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O sol da manhã entra devagar pelos vales da Terra Quente, aquecendo o xisto que ainda guarda o calor da fogueira da noite passada. Nas encostas que descem até ao Sabor, amendoeiras brancas de flor entreteem-se com oliveiras cujos troncos torcidos parecem mapas das tempestades que aqui passaram. O silêncio é tão grosso que se sente na pele — até o galo que canta parece fazê-lo de longe, como se tivesse medo de quebrar algo.
Adeganha e Cardanha juntaram-se no papel em 2013, mas quem cá vive sabe que sempre foram a mesma coisa — quem vai para a Taberna do Cura em Cardanha encontra os mesmos rostos que se cruzam na mercearia da Dona Albertina em Adeganha. Dos 437 que aqui ficaram, muitos têm parentes nas duas ladeiras do mesmo monte. Os miúdos que vão à escola em Adeganha fazem os trabalhos de casa sentados nas escadas de Cardanha, esperando pela carrinha que os leva para casa.
Onde a vinha encontra a amendoeira
Adeganha diz-se vir de "adega" — e não é por acaso. Nas caveiras das casas ainda se guardam pipas de madeira que o avô enchia com o vinho que fazia nas socalcos acima do cemiterio. Hoje quem tem vinha vende as uvas à cooperativa de Almendra — ninguém quer saber de lagares. Mas é a amendoeira que agora paga as contas: de manhã cedo, quando o nevoeiro ainda não subiu, ouvem-se as máquinas da Frusantos e da Moncorvo Almonds nas searas de terra vermelha. A Amêndoa Coberta é só uma marca — aqui chama-se "a amêndoa" e pronto. Quem a descasca são as mulheres da aldeia, sentadas nos degraus, com os sacos de plastico a rodar nos joelhos.
Despensa transmontana
O Cabrito assa no forno de leña do Zé Mário desde as sete da manhã — vai para o forno com a pele da barriga por baixo, que é assim que fica estaladiça. Quem passa às tantas já sente o cheiro pelo meio da rua. O azeite é do Lagar do Cardoso, aquele que fica antes da ponte para a Adeganha — é tão amargo que arde na garganta, mas é isso que o pessoal quer. Nas fumeiras do Celestino ainda se faz salpicão à moda antiga: carne de porco preto, pimentão fumado da casa, e nada mais. O Queijo Terrincho vem do Caseiro, mas quem o faz leite é quem tem ovelhas nos campos de cima — pagam-lhe 60 cêntimos por litro e nem sempre.
Agosto em devoção
Quando chega o fim de semana da Assunção, a estrada enche-se de carros com matrícula de França e de Luxemburgo. Os emigrantes chegam com as malas cheias de coisas que "cá não se arranjam" — mas vêm mesmo é para comer sardinha na brassa no largo da igreja e para se encontrarem no café a contar as mesmas histórias de sempre. É no domingo à noite que a coisa acontece: depois do bailarico no pavilhão, os velhos ficam à porta das casas a ver os netos que já nem falam bem português, e há sempre uma mulher a chorar baixinho quando os autocarros partem às seis da manhã.
Ao cair da tarde, quando o calor se vai embora, os cães começam a mexer-se. Ainda se sente o cheiro do forno que o Zé Mário está a apagar, e há um gato preto no muro da escola que parece estar à espera que alguém lhe conte como foi o dia.