Artigo completo sobre Castedo: xisto, amendoeiras e fumeiro transmontano
Aldeia a 594 metros onde o tempo se mede em colheitas e a mesa celebra os sabores certificados
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O sol da tarreia nos muros de xisto e nas paredes caiadas, devolvendo o calor que a serra guardou desde a madrugada. Em Castedo, o silêncio é partido pelo sino da igreja que se faz ouvir às 19h30 — hora da missa no Inverno — e pelo farfalhar das amendoeiras que sobreviveram à geada de 1991. A aldeia respira ao ritmo das estações: a floração da amendoeira entre 15 de Fevereiro e 10 de Março, a vindima começando sempre na terça-feira após 8 de Setembro, a apanha da azeitona antes de São Martinho. Aqui, a 594 metros de altitude, os 180 habitantes organizam-se em torno de gestos que a EM475 não mudou: a poda ao fim-de-semana, o fumeiro aceso em Novembro, a desfolhada do milho no terreiro da escola.
A memória inscrita na pedra
O nome Castedo aparece em 1258 na "Inquirição de Afonso III" como Castedlo, derivado do latim castellum. Ainda hoje, quem sobe pelo caminho de Santo António encontra na Cabeça da Vila pedras soltas que os mais velhos identificam como "da cidadela" — vestígios de uma fortificação medieval que controlava o vale do Sabor. A ocupação romana deixou marcas concretas: um tegula (tijolo de telhado) com selo LEG VI encontrado em 1978 no lugar do Outeiro, agora no Museu de Moncorvo; a estrada que ligava Vale de Açor à Cachão da Valeira, cujos paralelepípedos aparecem depois das chuvas no campo da Ribeira. Durante séculos, esta foi terra da comenda de Santiago de Castedo, integrada nas Ordens Militares, mas sempre dependente do trabalho da terra — vinha, oliveira, amendoeira. A organização administrativa liberal do século XIX formalizou o que já era evidente: Castedo era, e é, uma comunidade rural onde o tempo se mede em colheitas.
Mesa transmontana, certificada e genuína
Na cozinha de Castedo, os produtos locais certificados ocupam lugar de honra. O Borrego Terrincho DOP — nascido nas pastagens de Felgar a menos de 5 km — chega à mesa assado no forno de lenha da Dona Rosa, acompanhado de batatas regadas com a gordura do próprio borrego. O Cabrito Transmontano DOP, cozinhado lentamente na panela de ferro da avó, desfaz-se ao toque do garfo. Ao pequeno-almoço ou ao lanche, o Queijo Terrincho DOP do caseiro Albano — que fabrica desde 1972 — espalha-se sobre fatias de pão de levedura da padaria de Moncorvo, regadas com Azeite de Trás-os-Montes DOP da lagar cooperativa de Castedo, fundada em 1958. Nas casas, pendem os enchidos — Salpicão de Vinhais IGP, Presunto de Vinhais IGP — curados pelo fumo lento do fumeiro durante três meses. A Amêndoa Coberta de Moncorvo IGP e a Amêndoa Douro DOP são o final doce de uma refeição ou a companhia perfeita para o Mel da Terra Quente DOP produzido pelos romeiros de Castedo que descem ao Douro em Abril.
Festas que reúnem a aldeia
15 de Agosto é o dia em que Castedo ganha cor e movimento. A Festa da Vila e do Concelho em honra de Nossa Senhora da Assunção traz de volta quem partiu — os filhos que trabalham no Porto, em França, na Suíça — enchendo as 47 casas habitadas. A missa é às 11h00, seguida da procissão que desce pela Rua do Fonte até ao cruzeiro de 1892, onde se cantam os "louvores" da terra. A devoção é prática: as romeiras levam flores do jardim, as velas são compridas na loja da Carolina, as promessas são cumpridas com um terço rezado durante nove segundas-feiras. Mais tarde no ano, alguns habitantes dirigem-se a Felgar para a Festa de Nossa Senhora do Amparo (último domingo de Outubro), mantendo viva a tradição das romarias que ligam as aldeias transmontanas como contas de um rosário invisível.
Caminhar entre vinhas e amendoeiras
Percorrer Castedo é percorrer uma paisagem UNESCO — o Alto Douro Vinhateiro estende-se por estes montes ondulados, embora a aldeia não tenha a dramaticidade dos socalcos ribeirinhos. Aqui, a vinha partilha o território com olivais centenários e amendoeiras que, na primavera, transformam os campos em nuvens brancas e rosadas. O trilho do Rio Sabor, marcado pela Câmara de Moncorvo em 2018, tem 8,5 km e começa na Igreja Matriz — passa pela Ponte de Santo António (século XVIII), sobe ao lugar da Ordem onde se vêem os 40 hectares de vinha da cooperativa, e desce ao Sabor onde os pescadores locais capturam barbos de mais de meio quilo. Caminhar por ele é ouvir o canto da cotovia, sentir o cheiro a alecrim esmagado sob os sapatos, ver ao longe a silhueta da Serra da Padrela que delimita o horizonte.
A última luz do dia desenha sombras compridas nos muros de pedra seca construídos durante a "Campanha do Trigo" de 1938. Uma porta range — é a da casa onde nasceu o Joaquim Romeu em 1942 —, uma mulher sai com um alguidar de milho para as galinhas. O fumo de uma lareira sobe direito no ar parado, cheirando a carvalho e a tempo que não se conta — apenas se vive.