Artigo completo sobre Felgar e Souto da Velha: xisto, amêndoa e silêncio
União de freguesias transmontanas onde a altitude molda o quotidiano e a tradição agrícola resiste
Ocultar artigo Ler artigo completo
O cheiro a lenha queimada sobe pela encosta antes do amanhecer. Nas casas de xisto de Felgar, alguém acende o fogo enquanto a névoa ainda cobre os soutos do vale. Aos 605 metros de altitude, o frio da madrugada transmontana agarra-se às pedras, e o silêncio só quebra quando o sino da igreja de Nossa Senhora do Amparo marca as sete horas. Mais acima, em Souto da Velha, os castanheiros centenários começam a recortar-se contra o céu que clareia devagar.
Terra de amêndoa e xisto
A União das Freguesias de Felgar e Souto da Velha nasceu em 2013, juntando duas povoações que sempre viveram da montanha e dos seus frutos. Felgar, mencionado em documentos desde o século XIII, cresceu entre olivais e amendoeiras, enquanto Souto da Velha — o nome diz tudo — manteve os seus soutos como herança de uma ocupação antiga. Ambas integraram o concelho de Torre de Moncorvo desde o foral de 1252, e aqui o tempo sempre se mediu pelas colheitas: azeitona no inverno, amêndoa no fim do verão.
Hoje, com 860 habitantes espalhados por quase 47 quilómetros quadrados — uma das densidades mais baixas do país —, a freguesia vive ao ritmo da agricultura que resiste. As amendoeiras dominam a paisagem, e não por acaso: Felgar é um dos principais centros de produção da Amêndoa Coberta de Moncorvo IGP, aquela que depois se transforma em doces nas pastelarias da região. Em setembro, quando a apanha começa, as estradas enchem-se do perfume adocicado da casca seca.
Pedra que conta histórias
A igreja matriz de Felgar, com origem medieval e remodelações sucessivas, guarda uma imagem de Nossa Senhora do Amparo que os locais consideram milagrosa. As paredes de pedra guardam o frescor mesmo em pleno Agosto, e o interior silencioso contrasta com o arraial da festa anual, quando a procissão desce pela rua principal e a música tradicional ecoa até tarde. Em Souto da Velha, a capela de Santo António é mais pequena, mais discreta, mas igualmente enraizada na devoção comunitária.
Entre as duas localidades, os caminhos de xisto serpenteiam por entre muros de pedra seca, espigueiras de granito e levadas que ainda conduzem água aos terrenos. A arquitetura popular resiste: casas de xisto com portais de granito, varandas de madeira gretada pelo sol e pelo gelo, telhados onde o musgo cresce nas telhas voltadas a norte.
À mesa
O borrego Terrincho DOP e o cabrito Transmontano DOP são os reis da mesa nas celebrações. Assam devagar, temperados com alho e azeite de Trás-os-Montes DOP, até a carne se soltar do osso. A chouriça de carne de Vinhais e o salpicão pendurados no fumeiro completam a charcutaria, enquanto a azeitona Negrinha de Freixo DOP — pequena, escura, de sabor intenso — abre o apetite. Ao fim, os doces de amêndoa: coberta, em forma de queijinhos do céu, ou simplesmente torrada com mel da Terra Quente DOP. O vinho do Douro, tinto e encorpado, acompanha tudo.
Caminhar entre soutos e serras
Inserida na vertente sul do Parque Natural do Douro Internacional, a freguesia oferece percursos pedestres que atravessam matas de carvalho e sobreiro. O relevo acidentado obriga a subidas, mas recompensa com vistas sobre vales onde a esteva e o rosmaninho perfumam o ar nos dias quentes. A fauna inclui javalis que deixam marcas na terra húmida, raposas que cruzam os caminhos ao crepúsculo, e aves de rapina que planam sobre as encostas. O rio Douro corre a cerca de 15 quilómetros, influenciando o microclima que permite às amendoeiras e oliveiras prosperar.
A cerca de 18 pessoas por quilómetro quadrado, há espaço para o silêncio. E quando a luz da tarde rasga as copas dos castanheiros em Souto da Velha, projectando sombras compridas sobre o xisto das ruas, o que fica é a sensação física de um território que não pede pressa — apenas que se repare na textura da casca rugosa, no peso da amêndoa na palma da mão, no eco dos próprios passos entre muros que já ali estavam quando os avós dos avós plantaram as primeiras árvores.