Artigo completo sobre Mós: Granito e Memórias nas Encostas do Douro Superior
Vila medieval transmontana onde o foral de D. Dinis ainda ecoa entre casas de xisto e granito
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O granito aquece ao sol da tarde, devolvendo o calor acumulado durante o dia. Nas ruas estreitas de Mós, o silêncio só é interrompido pelo eco distante de uma porta a fechar-se ou pelo vento que varre as amendoeiras dos campos circundantes. A luz rasante do fim de tarde desenha sombras longas nas paredes grossas das casas, onde o xisto e o granito se misturam numa paleta de cinzentos e ocres. Aqui, a 394 metros de altitude, o Douro Superior mostra-se numa versão mais contida, menos dramática que as encostas de vinha, mas não menos autêntica.
Uma vila que foi medieval
Mós traz no nome a memória das matas que outrora cobriam estas encostas — "mos", do latim, evoca a floresta densa que aqui existiu. O foral de D. Dinis, datado de 1285, confirma a antiguidade desta povoação, que serviu de ponto de passagem nas rotas entre Trás-os-Montes e o Douro. A igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, ergue-se com a sobriedade própria da arquitectura rural transmontana, guardando no interior alguns elementos barrocos que contrastam com a austeridade exterior. O adro, de pedra irregular, abre-se para o vale como um miradouro natural, onde o olhar se perde entre sobreiros e azinheiras até encontrar o traçado distante do rio Sabor.
Agosto em festa
Quando chega agosto, a aldeia acorda para a Festa da Vila e do Concelho em honra de Nossa Senhora da Assunção. As procissões percorrem as ruas estreitas, os arraiais estendem-se pela noite dentro, e a gastronomia transmontana ocupa as mesas: cabrito transmontano assado em forno de lenha, borrego terrincho, chouriça de carne de Vinhais com o seu fumeiro inconfundível. Nos tabuleiros, a amêndoa coberta de Moncorvo e a azeitona negrinha de Freixo em conserva lembram que este território vive também dos frutos que o sol generoso amadurece.
Sabores da Terra Quente
O mel da Terra Quente escorre denso e dourado, com o perfume das flores silvestres que cobrem os campos na primavera. O queijo terrincho, de pasta firme e sabor intenso, acompanha o pão caseiro, enquanto o azeite de Trás-os-Montes DOP tempera as saladas e os grelhados. O salpicão de Vinhais e o presunto bísaro completam uma mesa que é, em si mesma, um mapa dos sabores desta região onde a altitude e o clima continental moldam os produtos.
Caminhar entre pedras e vistas
Percorrer Mós hoje é seguir caminhos antigos de pedra irregular, muros que delimitam propriedades há séculos, trilhos rurais que atravessam campos de cultivo e manchas de mato baixo. A proximidade ao vale da Vilariça e ao Sabor oferece vistas largas, onde o verde-escuro dos sobreiros contrasta com o ocre da terra seca no verão. Não há multidões nem pressa — apenas o ritmo lento de uma aldeia onde vivem 189 pessoas, a maioria delas acima dos 65 anos, guardiãs de um quotidiano que resiste à erosão demográfica.
O que resta de Mós
A escola primária fechou há duas décadas, transformando-se em centro de dia que abre três vezes por semana. No café da aldeia, o António serve bicas a 60 cêntimos e guarda pacotes de tabaco atrás do balcão como se guardasse relíquias. Às terças-feiras, a van da Câmara traz pão fresco e leite com data longa — sem isso, a Dona Amélia, com seus 87 anos, ficava sem pequeno-almoço. Os campos de centeio que o seu falecido marido lavraram estão agora a ganhar silvas e roseiras-bravas. Ainda assim, quando chega o dia da romaria, os emigrantes regressam: os filhos de Bruxelas, os netos de Paris. Por uns dias, a aldeia tem outro som — o das crianças a correr no adro, o dos carros a estacionar onde antes só passava o tractor do Zé Milho.
A tarde cai e o cheiro a lenha começa a subir das chaminés. Nas paredes de granito, a luz dourada do poente demora-se mais uns minutos antes de ceder ao frio que a noite traz. Mós fica ali, suspensa entre o vale e a montanha, como quem espera sem urgência que alguém se lembre de voltar.