Artigo completo sobre Assares e Lodões: onde o Tua separa dois mundos
Duas aldeias transmontanas unidas por pontes de pedra e romarias centenárias em Vila Flor
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O sino da Igreja Matriz de Assares solta três badaladas sobre o vale. O eco viaja devagar pelo ar seco de agosto, ressalta nos socalcos de amendoeiras e olivais, atravessa a ponte de pedra sobre o Tua e morre nas encostas de Lodões. Entre as duas povoações, duzentos e catorze habitantes distribuem-se por quase mil e quinhentos hectares de xisto e granito — uma densidade que se mede em minutos de caminhada entre casas, não em metros.
Quando a pedra conta séculos
A Igreja de São Bartolomeu ergue-se no centro de Assares com a sobriedade barroca do século XVIII. A cal branca das paredes contrasta com o cinza escuro dos umbrais, polidos por gerações de mãos que empurraram aquela porta. Em Lodões, a Igreja de São Miguel mantém a arquitectura transmontana de muros grossos e janelas estreitas — construída para guardar o fresco no Verão e reter o calor das missas de Inverno. A ponte medieval sobre o Tua, reconstruída após as cheias de 1870 mas fiel à estrutura original, liga ainda hoje as duas comunidades. Os arcos de volta perfeita reflectem-se na água escura quando o rio corre manso.
Terra de romarias e procissões
Em quinze de agosto, a Romaria de Nossa Senhora da Assunção transforma Assares. O cheiro a cera de vela mistura-se com o fumo dos assadores nos arraiais. A procissão sobe devagar pela rua principal — estandartes bordados a ouro balançam ao ritmo dos passos descalços. Semanas depois, no primeiro domingo de setembro, é a Capela de Nossa Senhora do Castanheiro que recebe os devotos. A romaria mantém gestos centenários: as mulheres cobrem a cabeça com lenços escuros, os homens carregam os andores em silêncio concentrado, e à noite a música tradicional faz levantar poeira no largo.
Sabores que vêm do xisto
O borrego Terrincho DOP assa lentamente nos fornos a lenha — a gordura estala, a pele tosta até ficar estaladiça. O cabrito Transmontano segue o mesmo ritual de fogo brando e alecrim selvagem. Nas cozinhas, a chouriça de carne de Vinhais pende dos fumeiros, curando-se ao ritmo das estações. A amêndoa Douro é moída para o toucinho-do-céu, cujo miolo amarelo brilha como ouro comestível. Sobre a mesa, o azeite de Trás-os-Montes escorre espesso e verde das talhas de barro, acompanhado pelas azeitonas negrinha de Freixo — pequenas, escuras, com caroço grande e polpa firme.
Entre o Tua e as amendoeiras-mãe
A duzentos e três metros de altitude, a freguesia desenha-se em socalcos agrícolas esculpidos no xisto. As amendoeiras dominam a paisagem — algumas centenárias, conhecidas localmente como "amendoeiras-mãe", torcem os troncos em formas impossíveis mas continuam a dar fruto. Em Fevereiro, a floração cobre os vales de branco e rosa pálido. O Tua serpenteia no fundo, criando a humidade necessária aos olivais que sobem as encostas. Nos pinhais das zonas altas, o silêncio é tão denso que se ouve o próprio sangue a circular nas orelhas.
A tarde cai sobre Lodões e a luz rasante incendeia os troncos das oliveiras. No ar fica o cheiro a terra aquecida, a resina de pinheiro e, algures, a lenha de carvalho que alguém acende para preparar o jantar. O vale do Tua enche-se de sombra enquanto o último raio de sol acende, por segundos, o campanário de São Miguel.