Artigo completo sobre Bombos de Benlhevai ecoam no vale desde 1992
Benlhevai, Vila Flor: aldeia de Trás-os-Montes onde os bombos animam o antigo lagar e o souto comunitário produz quinze toneladas de castanha por ano.
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O ensaio semanal acontece todas as quintas-feiras no antigo lagar comunitário. Os bombos «Os Amigos de Benlhevai» fazem tremer as paredes de pedra e o som propaga-se pelo vale até ao ribeiro, onde outrora girava a roda do moinho. Vinte e três dezenas de habitantes, mas o ritmo mantém-se desde 1992. Não há café, não há loja. O pão chega de Vila Flor no veículo de apoio domiciliário que sobe a encosta todas as manhãs. Em Benlhevai, a densidade é de vinte pessoas por quilómetro quadrado e o pulso da comunidade mede-se noutros compassos.
Onde o xisto guarda histórias
A igreja matriz de São Bartolomeu ergue-se em talha dourada e azulejos setecentistas, testemunho barroco num povoado que nunca teve foral próprio — sempre integrou o termo de Vila Flor, cuja carta de couto D. Dinis outorgou em 1286. O topónimo, talvez derivado de «Benelhavium», aponta para um «local bem abrigado», e a geografia confirma: o vale do ribeiro de Benlhevai esconde-se entre os relevos que antecedem a serra de Bornes, onde o vento norte perde força antes de chegar às hortas.
No lugar de Povoa, os espigueiros de xisto e madeira alinham-se junto aos palheiros como pontuação antiga na paisagem. O cruzeiro de pedra, encostado ao adro, data do século XVIII. A capela de Nossa Senhora do Castanheiro, nave única sem ornamentos, recebe romeiros na primeira semana de setembro — peregrinação pedestre, leilão de produtos regionais, cantares ao desafio sob os ramos.
A castanha fumada e o azeite da terra
O souto comunitário, plantado após a filoxera no início do século XX, produz cerca de quinze toneladas por ano. Durante a «Magusta», em novembro, assa-se a castanha em fogueiras alimentadas com vinha-podra. O fumo impregna a polpa e confere-lhe sabor que nenhum forno eléctrico replica. À mesa, o cozido transmontano alterna com o cabrito assado em forno de lenha. Os enchidos fumados — salpicão de Vinhais IGP, chouriça de carne, alheira — pendem nos fumeiros das casas mais antigas. O queijo Terrincho DOP cura em prateleiras de madeira, ao lado do queijo de cabra transmontano. O azeite de Trás-os-Montes DOP vem dos olivais que desenham socalcos até ao ribeiro, onde nidificam melro-preto e pisco-de-peito-ruivo.
Trilhos, barro e estrelas
O Trilho dos Soutos (PR4) desenha seis quilómetros circulares entre Benlhevai e Povoa, passando pelo moinho, pelo lagar e pelo miradouro sobre o vale do Tua. A serra de Bornes, a norte, oferece trilhos onde ainda pastam garrano em liberdade e onde o gavião-perdigueiro caça nas barregas de xisto cobertas de esteva e rosmaninho. À noite, sem poluição luminosa, o céu abre-se em constelações nítidas. Há quem saia da igreja após o pôr do sol, telescópio ao ombro, para observar aves de rapina nocturnas com guia local.
O padre Joaquim Augusto Ferreira, natural de Povoa, deixou manuscritos sobre usos e costumes transmontanos no Arquivo Distrital de Bragança. As suas notas descrevem a Festa da Vila — 24 e 25 de Agosto, procissão, arraial, bailarico — e a Romaria de Nossa Senhora da Assunção, a 15 de Agosto, seguida de magusto partilhado sob os castanheiros. O som dos bombos ecoa ainda hoje nos mesmos caminhos que ele percorreu. No salão paroquial, recuperado com o patrocínio de António Marques, emigrante condecorado pelo município em 2008, os cantares ao desafio prolongam-se depois do jantar de romaria.