Artigo completo sobre Freixiel: antiga vila de foral no planalto de Trás-os-Montes
Pelourinho, casas senhoriais e romarias de verão numa freguesia que foi sede de concelho até 1836
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O som chega antes da imagem: o sino da torre dá três badaladas pausadas – nunca mais do que três, que o Sr. Joaquim é homem de jeito – e o eco rola pelos soutos como bola de guide. É meio da manhã e o pelourinho já aquece ao sol, ali plantado como quem diz “fui disto tudo e ainda bem que esqueceram”. Porque Freixiel chegou a ter foral, câmara e tudo, até 1836. Depois levaram-lhe o concelho, deixaram-lhe o largo grande demais para os 527 habitantes que hoje cá ficaram – número redondo, como quem arredondou a baixa.
Vila sem concelho, memória intacta
A história não está nos livros; está na porta da antiga casa da camara onde ainda se lê “1867” e no muro do quintal do Chico que é todo de mármore – sim, mármore, aqui mesmo, que antigamente havia dinheiro para essas finezas. O nome vem do latim, dizem os mais doutos; os mais velhos dizem que vem de “freixo”, que é o mesmo e se percebe logo. A comenda dos hospitalários passou por aqui, depois foi-se embora como quem leva o guarda-chuva esquecido. Ficaram os brasões, ficou a lenda de que o Noronha foi decapitado por trair o Dom João IV e ainda hoje há quem jurar que se ouvem passos na casa senhorial onde ele dormiu – agora é junta de freguesia e dormem lá os papéis do subsídio de desemprego.
O calendário das romarias
Agosto é mês cheio. Dia 15 há romaria à Assunção: missa no campo, tochas de gasóleo porque as de azeite são caras, e depois bifanas de tabuleiro que a D. Lurdes faz desde as quatro da manhã. No fim de semana a seguir é a festa de S. Bartolomeu: almoço de borrego no clube, bailarico com música dos Anjos, e o fireworks do Zé Mário que quase incendia o eucaliptal do outro lado – todos os anos se promete não repetir, todos os anos repete-se. Em setembro sobe-se ao Castanheiro: leilão de bolos, vinho de talha e um cântaro de donativos que nunca dá para pagar o corte de relva do adro. No inverno, os Reis de papelão batem às portas, cantam à desgarrada e levam um euro e meio por casa – serve para comprar tinta às máscaras do ano que vem.
A despensa transmontana
Cozinha-se como se o diabo estivesse à porta: feijoada no tacho de ferro que a avó deixou, migas com espargos bravos que se apanham de madrugada (quanto mais chato o espeto, melhor o sabor), e o borrego Terrincho que só é Terrincho se o pasto for daqui até Rabilhó. O fumeiro balança no sobrado: chouriça de carne que a vizinha troca por um galo, salpicão que o sogro manda de Vinhais e o queijo que se parte em pedaços tamanho de punho – ninguém perde tempo com fatias finas. Para sobremesa, o pão-de-ló da D. Isaura que desce com um golo de bagaço; quem não gosta de bagaço leva café, mas é sempre de saco, que a máquina da tasca avariou em 2019 e ninguém a arranja.
Percorrer o território
A caminhada começa no largo, passa pela fonte onde a malta ia buscar água antes da canalização – ainda há quem diga que a da bica “é mais leve”. Sobe-se pelo caminho de carroção, entre muros de xisto que o Rui anda a remendar com pedra de ribeira porque “o cimento é trapalhão”. A quatro quilómetros está o miradouro: vista para o Tua, grifo se tiver sorte, e silêncio tamanho que se ouve o estômago rosnar. Leve o farnel, porque lá em cima não há café nem máquina de refrigerantes; há é um banco de madeira onde se pode comer o sanduíche de presunto e deixar as cascas de ovo no chão – os javalis agradecem.
Na tasca, que é também mercearia, papelaria e gabinete de apostas, o dia acaba quando o Aníbal diz “vou fechar, senhores”. Fala-se do preço das ovelhas, da estrada que ninguém asfalta e do rapaz que foi para Paris e lá está, “a ganhar bem, mas a comer mal”. Lá fora o sino bate outra vez – só mesmo três, que o Sr. Joaquim é preciso. E o largo fica grande outra vez, pronto para amanhã, quando o sol aquece o mesmo granito e a memória que ninguém lhe roubou.