Artigo completo sobre Santa Comba de Vilariça: citrinos e xisto na Terra Quente
Freguesia de Vila Flor onde laranjeiras crescem entre vinhas e o castro vigia o vale da Vilariça
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O sol das nove já aquece o xisto dos socalcos quando o sino da igreja bate a hora. O som desce o vale abaixo, abana as folhas das laranjeiras e morre na ribeira. Não é qualquer sino: é o que o Ferrinho, o coveiro, mandou fundir em 1952 depois de o anterior ter rachado no domingo de Páscoa. O cheiro a terra quente mistura-se com o adocicado das laranjas - aquelas que o Sr. Agostinho plantou contra tudo e todos, dizendo que "aqui no fundo do vale até o diabo apanha sol".
Entre atalaia e cruzeiro: vestígios de quem vigiou o vale
O castro lá em cima não é só Monumento Nacional - é onde os miúdos vão roubar amoras em junho. Das ameias resta meia parede onde se sentam a fumar os primeiros cigarros, escondidos da Ermelinda que limpa a igreja. O cruzeiro de 1782 tem a base lascada desde que o camião do leite bateu lá em 83. Dentro, o retábulo dourado tem um anjo com as asas partidas - ninguém se atreve a arranjar porque dizem que foi o próprio Santo António que as partiu, zangado com os pescadores de lagostins que não lhe deixaram oferenda.
Citrinos no interior e o carvalho mentiroso
A romaria de Nossa Senhora do Castanheiro é mesmo ao pé do carvalho - e sim, é um carvalho, mas o nome vem do tempo da peste, quando os castanheiros todos morreram e este ficou lá, teimoso. Em setembro, a D. Rosa leva os bolos de leite que só ela sabe fazer - o segredo é bater as claras na mesma tigela de barro que a mãe usava. Os cânticos ao desafio começam depois do terceiro cálice de aguardente, quando o Zé Mário se lembra da moda do "Saudade da Aldeia" que o pai lhe ensinou.
À mesa: chanfana, queijo terrincho e vinho que faz falar
A chanfana da Celeste é famosa porque ela guarda a panela de barro só para isso - ninguém a usa, nem para fazer sopa. O Terrincheiro vem lá do Fundo da Vila, que é como quem diz "do outro lado da ribeira", e o mel é do Zé da Tina que tem as colmeias na encosta onde antigamente se plantava milho. O pão de ló da Dona Odete não é nada fofinho - é denso, pesado, do tipo que se come com café e faz cócegas no fundo da garganta. O vinho é da adega do Zé Manel que ainda pisa com os pés descalços, dizendo que "é para sentir se a uva está triste ou alegre".
Percursos entre xisto e olivais que viraram mato
O trilho PR3 começa mesmo ao lado da fonte onde a malata ia buscar água antes de lhe porem a torneira na cozinha. Passa-se pelo lagar do Sr. Jaime, abandonado desde que ele se fartou de "tanta trabalheira para tão pouco dinheiro". Os abutres são os mesmos de sempre - o pessoal diz que são os netos daquele que em 78 se pôs em cima do telhado da escola e não saía lá de cima. A vindima voluntária é mesmo isso: voluntária. Mas depois há a chanfana e a concertina do Zé dos Óculos que sabe tocar "Oh! Minha Bela" até as 4 da manhã.
Quando o sol se põe atrás das ameias do castro e o sino toca as ave-marias, o Sr. Agostinho vai regar as laranjeiras uma última vez. O fumo das lareiras sobe em coluna direita - aqui não há vento quando cai a noite. A ribeira faz o som de sempre, aquele que os netos que vieram passar o verão dizem que lhes falta quando voltam para Lisboa. E no silêncio que se segue, ouve-se o cão do Ferrinho ladrar ao eco - primeiro em cima, depois lá em baixo, como se todo o vale fosse um rádio antigo a sintonizar a noite.