Artigo completo sobre Trindade: sino, xisto e amendoeiras no alto de Vila Flor
Conheça Trindade, freguesia de Vila Flor em Bragança, onde 116 habitantes preservam olivais centenários, amendoeiras DOP e festas de Agosto que resistem ao
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O sino da igreja toca às horas certas, mas nunca sozinho: leva com ele o eco das outras duas igrejas do vale, e durante um segundo não se sabe de onde vem o som. Trindade agarra-se à encosta a 535 metros, uma costura de telhados ferrugentos e paredes caiadas que já não emagrecem. Cento e dezesseis habitantes — na realidade cento e quatro, porque os outros dois só cá vêm quando o correio traz más notícias — distribuem-se por casas que ainda cheiram a lenha verde e a roupa estendida. O silêncio é tão pesado que se pode contar as folhas a cair: primeiro o bater leve no chão, depois o roçar na terra solta.
Terra de amendoeira e azeite
As amendoeiras não florescem — rebentam. Em meados de Fevereiro, quando ainda se corta gelo no pote dos cães, os botões abrem-se de um dia para o outro e a encosta fica como se tivesse nevado de raspão. Depois vem o medo: uma noite de geada e fica tudo preto, o ano perdido. Quando o medo passa, sobra o trabalho. Sobem-se os terraços de mão, porque os tratores não cabem nem pagam: cada árvore é uma boca a alimentar, cada oliveira tem nome de quem a plantou. O azeite nasce grosso, deixa a garganta presa e um sabor a pimenta que arde no canto da boca dias depois. Guarda-se para o feijão branco e para as feridas dos outros, as que não se mostram.
O que se come quando não se vai embora
O presunto cura-se no mesmo quarto onde se dorme: o cheiro impregna o travesseiro e sai nos sonhos. A chouriça de Vinhais leva três noites de fumo de carvalho — nada de medidas, vai-se cheirando até ela dizer que está cansada. O queijo terrincho não se vira: pendura-se na lata de água e deixa-se escorrer, lento, como quem não tem pressa de ir lado nenhum. Em Agosto abatem-se os porcos; o sangue espirra quente na pedra e as crianças — as duas que ainda há — aprendem a não chorar. Cada mês tem a sua matança, a sua sementeira, a sua colheita; o calendário não se compra, herda-se.
Três dias que ainda não morreram
Dia 24 de Agosto é São Bartolomeu. Acorda-se antes das galinhas para ir buscar pão à padaria de Vila Flor — aqui não há, fechou quando a dona foi para o hospital e não voltou. Às nove da manhã o largo já cheira a alho e a gordura de vaca velha. Os emigrantes chegam de carro alugado, trazem gelado nos isqueiros e miúdos que não falam português. Jogam-se as cartas debaixo do plátano, perde-se o que não se tem, ri-se o que não se pode. No dia 15 — Assunção — vai-se a pé até ao cimo do castanheiro, carrega-se uma garrafa de água e desce-se meio litro de aguardente. A terceira festa nem é festa: é o dia em que se lembra quem não resistiu ao inverno. Ninguém marca hora, mas toda a gente aparece.
O que fica quando os outros vão embora
As casas vazias não se fecham: entreabrem-se, deixam-se ver a louça na mesa e o casaco na cadeira, como se o dona fosse já aí. A vinha sobe ainda em latadas de castanho, mas ninguém manda — cresce para onde lhe dá na gana. O forno comunitário acende-se duas vezes por ano: para o pão da festa e para o pão dos defuntos. A água da fonte é fria mesmo em Agosto; mata-se a sede e matam-se as saudades, de uma vez só. A noite cai de rompante: primeiro ainda se distingue o cume da serra, depois é tudo negro, só o cão do Curral do Meio ladra para ensinar as estrelas o seu lugar.
Quando o sino toca pela última vez, não é aviso: é pergunta. E nós, os que aqui ficámos, ainda respondemos, dum modo que só ouve quem já não espera ouvir nada.