Artigo completo sobre Vila Flor: Onde D. Dinis Ergueu um Arco e Mudou a História
Olivais DOP, arco gótico e baloiços sobre o Tua na capital transmontana do azeite
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O Arco de D. Dinis não é só pedra: é a passagem à força para quem vai buscar o pão à mercearia da Sandra. Lá por cima, o granito centenário aguenta-se ao vento; lá em baixo, o piso irregular da rua obriga a olhar para os pés – o que, convenhamos, já evitou muita trombadela com quem vinha embalado em conversa. Dizem que foi o próprio rei quem mandou pôr ali o arco e quem lhe mudou o nome à vila, mas quem vive cá sabe que os nomes se agarram como as oliveiras: custam a mudar e, quando mudam, é para sempre.
A capital onde o azeite respira
Vila Flor está a 278 m, mas o que conta é que, das 9 às 10 da manhã, o café Central cheira a tostada e azeite novo. Provem-se as amostras em copos de plastico, como se fosse bagaço, e já se percebe se foi ano de mosca ou não. No fim-de-semana, o Sr. António traz da lagar um garrafão de 5 L para a filha que foi para Lisboa “fazer doutoramento” – leva-o no porta-bagagens como se fosse ouro, porque lá fora cobram o triplo. A Igreja Matriz é ao lado, branca contra o céu seco de verão; a fonte romana, mais abaixo, ainda serve para as crianças molharem os pés quando a temperatura passa dos 35 °C.
Quem tiver pernas para a subida, siga pela estradinha de terra até à Lapa. O baloiço é novo, mas a vista é a mesma de sempre: o Tua a fazer curvas abaixo, amendoeiras a florearem-se brancas em Março, umas poucas vinhas agarradas ao xisto. Tire-se a fotografia, se for preciso guardar provas, mas o que fica mesmo é o silêncio – aquele silêncio que só se ouve quando o telemóvel perde rede.
O sabor que se herda
O cabrito vai ao forno de lenha às 6 da manhã; às 13h00 já está na mesa do restaurante “O Albertino”, crocante de fora, desfiado por dentro, com batatinhas regadas ao molho. Quem preferir butelo, espere pelo Inverno: é nessa altura que o Celestino mata o porco, e as couves estão já gordas da geada. O bolo de azeite faz-se na frigideira, não no forno; a receita vem da avó, mas quem não tem avó compra na padaria Central – está lá sempre, atrás do balcão, em fatias que cabem na palma da mão. Quanto ao Terrincho, leve-se em papel de alumínio para comer no carro: derrete-se um bocadinho, mas é assim que se percebe se está no ponto.
Festas que não esperam turistas
Agosto é sinónimo de São Bartolomeu. As bancas de farturas ocupam a rotunda, a banda filarmónica ensaiou o mês todo no campo de terra batida ao lado da escola, e quem emigrou marca férias para aquela semana. Não há programa impresso: junta-se gente, abrem-se garrafas de branco gelado, e quando os foguetes sobem à 1 da manhã todo o mundo já sabe onde estava o erro na marcha. No domingo, depois da procissão, serve-se caldo de peixe no adro – leve-se a própria tigela, senão fica a mão a arder.
Trilhos que contam histórias
O trilho do Tua é plano o suficiente para levar os netos e o cão. Começa mesmo atrás do parque de merendas: siga-se o cheiro a salgueiro e às vezes a melro-assado (alguém faz sempre um braseiro escondido). O dos Peregrinos é outra conversa: sobe-se a pique, se calhar encontram-se umas senhoras de véu que vêm a rezar e que sabem, pelos nomes, quem mora em cada casa. No fim, recompensa-se o esforço com um bica no café da Lapa – é pequeno, mas a máquina é nova e o leite é fervido na panela.
Lenda para levar para casa
À noite, sem lua, a Fonte das Bestas fica escura que nem breu. Diz a história que a Moura chorava por um amor perdido; o que se ouve hoje é mesmo o vento na cana, mas quem levar a cabeça carregada de vinho do Porto até pode jurar que ouviu alguma coisa. Não importa: lendas são como o azeite, guardam-se para quando se precisa de um fio de esperança.
Quando o sol se põe atrás do arco, o granito fica quente durante uns minutos – é o tempo de ainda dar para sentar no degrau e acompanhar quem vai para casa. Depois, o frio desce da serra e a rua fica vazia. É nessa hora que Vila Flor encolhe, respira fundo, e fica à espera de quem regressa no dia seguinte.