Artigo completo sobre Vilas Boas e Vilarinho: Azenhas e Pedra Transmontana
Duas aldeias unidas pela memória medieval, oliveiras centenárias e festas de São Bartolomeu
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O granito escuro das casas bebe o sol da tarde, e o silêncio só é quebrado pelo rumor da ribeira que ainda move, lá em baixo, a ultima azenha de Vilarinho. Em Vilas Boas e Vilarinho das Azenhas, a paisagem transmontana desenha-se em tons de ocre e verde-cinza: amendoeiras retorcidas pelo vento, oliveiras centenárias e muros de xisto que delimitam socalcos onde o tempo se mede em colheitas, não em horas. A altitude média de 534 metros confere ao ar uma frescura que persiste mesmo nos dias quentes de Agosto, quando as festas trazem de volta quem partiu.
Duas aldeias, uma história comum
A união administrativa de 2013 formalizou o que a geografia já sugerira: duas aldeias pequenas, separadas por vales e caminhos de terra, mas unidas pela mesma memória medieval. Vilas Boas remonta a tempos de terras reguengas e doações à Igreja, ecos de um território que pertenceu à extinta vila de Santa Cruz da Vilariça. Vilarinho das Azenhas, por seu turno, guarda no nome a marca dos moinhos de água que outrora transformavam o grão em farinha — estruturas hoje silenciosas, mas cujas ruínas ainda pontuam a paisagem como testemunhos de pedra de uma economia agrícola que alimentava famílias inteiras. A Igreja de Vilas Boas e a Igreja de Vilarinho das Azenhas, ambas de raiz medieval, erguem-se no centro das aldeias como âncoras visuais e espirituais, com portais de granito gasto por séculos de mãos que se benzem antes de entrar.
Romarias e calendário devocional
A vida comunitária organiza-se em torno das festas religiosas que pontuam o Verão e o início do Outono. A Festa da Vila em honra de São Bartolomeu, em Agosto, enche as ruas de Vilas Boas com o cheiro a carne assada e o som de acordeões. A Romaria de Nossa Senhora da Assunção e a Romaria de Nossa Senhora do Castanheiro mobilizam devotos de toda a região, trazendo procissões que avançam lentamente pelas ruas estreitas, enquanto as mulheres mais velhas murmuram rezas em voz baixa. Nos adros, mesas compridas cobrem-se de iguarias transmontanas: chouriça grelhada, queijo terrincho de pasta amarelada, pão caseiro ainda quente.
Sabor certificado de Trás-os-Montes
A gastronomia aqui não é ornamento: é identidade. A lista de produtos DOP e IGP lê-se como um catálogo da excelência transmontana — Borrego Terrincho, Cabrito Transmontano, Queijo de Cabra Transmontano, Chouriça de Carne de Vinhais, Salpicão de Vinhais, Presunto de Vinhais, Mel da Terra Quente, Azeite de Trás-os-Montes, Azeitona de Conserva Negrinha de Freixo, Amêndoa Douro. Cada produto carrega o peso de gerações que aperfeiçoaram técnicas de cura, fumeiro e ordenha. A feijoada transmontana, cozida em lume brando, mistura feijão vermelho, entrecosto, orelha e chouriço numa panela de barro que liberta um vapor denso e aromático. A posta à mirandesa, grelhada sobre brasas de carvalho, deixa um rasto de fumo que se enrosca nas paredes enegrecidas das cozinhas antigas.
Densidade rarefeita, autenticidade concentrada
Com apenas 12,2 habitantes por quilómetro quadrado, a freguesia é um dos territórios mais rarefeitos do país. Dos 525 residentes, 215 têm mais de 65 anos, e apenas 27 são crianças — números que desenham um retrato demográfico comum ao interior norte, mas que também garantem uma autenticidade cada vez mais rara. Aqui não há multidões nem roteiros turísticos massificados. Os três alojamentos disponíveis — moradias e quartos particulares — oferecem uma hospitalidade discreta, sem artifícios, onde o pequeno-almoço pode incluir ovos das galinhas do quintal e compota caseira de figo.
Paisagem de sequeiro e vinha
A área de 42,96 quilómetros quadrados estende-se em ondulações suaves, cobertas de olival, amendoal e matos aromáticos. Sem trilhos homologados ou praias fluviais, a exploração aqui faz-se ao ritmo dos caminhos rurais que ligam as duas aldeias, percorridos a pé ou de carro, sempre com a Serra ao fundo e a luz rasante da tarde a dourar os socalcos. A inserção na Região Vinícola do Douro e Porto lembra que, apesar da discrição, este território participa de uma tradição vinícola secular, com vinhas velhas plantadas em encostas de xisto que produzem uvas de altitude.
Ao final da tarde, quando o sol desce por trás das serras e o frio começa a subir dos vales, o som do sino da igreja propaga-se lentamente pela aldeia — um toque grave, metálico, que ressoa contra o granito das casas e se perde nos olivais, lembrando que aqui ainda há quem escute.