Artigo completo sobre Matela: ventos de noroeste e moinhos de pedra
Aldeia a 543m de altitude em Vimioso, com cinco moinhos históricos e fumeiro artesanal de Trás-os-Mo
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O vento chega sempre do mesmo lado, dizem os mais velhos. Sopra de noroeste, constante, e traz consigo o cheiro a rosmaninho e a lenha queimada que sobe das chaminés. Em Matela, a 543 metros de altitude, o ar move-se entre os montados de azinho e sobreiro, agita as espigas de centeio nos campos abertos e faz oscilar os ramos das amendoeiras que, na primavera, cobrem o planalto de branco. É esse mesmo vento que seca o fumeiro pendurado nas eiras, o chouriço de carne mirandesa DOP e a alheira fumada em varas de sobreiro, deixando na atmosfera um travo salgado e acre que se mistura com a terra húmida após a chuva.
A aldeia dos cinco moinhos
A Ribeira de Matela corre discreta, entre muros de pedra seca e levadas medievais que um dia canalizaram a água para as hortas e para os moinhos. Hoje restam apenas ruínas — câmaras de moagem abandonadas, rodas hidráulicas de granito cobertas de musgo —, mas no século XIX eram cinco os engenhos que moíam centeio e trigo para todo o termo de Vimioso. O Trilho dos Moinhos percorre os sete quilómetros que ligam esses vestígios, seguindo marcas amarelas desde a Igreja Matriz até ao último moinho, onde a água ainda murmura entre as pedras e os tordos descem em bandos no outono.
A igreja, edificação setecentista de nave única e frontão triangular, guarda um retábulo neoclássico e as imagens barrocas de Nossa Senhora das Graças e São Bartolomeu. A luz entra oblíqua pelas janelas estreitas e desenha sombras nas paredes caiadas, enquanto lá fora, na praça, a pedra da eira do sol está orientada exatamente a 30° nordeste — geometria ancestral para aproveitar a exposição máxima e secar o milho. Mais abaixo, a Capela de São Brás ergue-se em alvenaria de granito, campanário singelo contra o céu aberto.
Fogo, canhono e malga de barro
A mesa de Matela responde ao calendário agrícola. No outono, a sopa de castanha com toucinho fumado aquece as noites frias; o casulo com feijão aproveita as vagens secas num prato denso, quase espesso, que se come devagar. O cabrito transmontano DOP assa no forno de lenha com vinho branco, alho e louro, a pele estala dourada e a carne desfia-se ao toque do garfo. Acompanha-o batata a murro regada em azeite de Trás-os-Montes DOP, e o vinho tinto do Planalto Mirandês, servido em malga de barro, deixa um travo frutado e encorpado na boca.
No dia 24 de agosto, a aldeia desce em peregrinação até à capela de São Brás. Cantam-se loas ao santo, palavras que ecoam pelas encostas, e o almoço comunitário serve canhono — borrego estonado no forno — enquanto o fumo sobe lento entre as mesas improvisadas. Em maio, a procissão de Nossa Senhora das Graças percorre as ruas com trajes de lã e rendas, e no final distribui-se o bolo doce, farinha com azeite e canela, morno ainda do forno.
Onde o centeio encontra o céu
Do miradouro do Cruzeiro, o olhar estende-se sobre campos ondulados onde o centeio amadurece ao sol. O horizonte dilui-se numa linha incerta entre terra e céu, e ao final da tarde a luz rasante transforma os olivais tradicionais em manchas de prata. Não há multidões, apenas o silêncio pontuado pelo canto do melro-preto e pelo vento que nunca descansa. Na quinta Casa do Azinho, é possível participar na vindima manual em setembro, pisar as uvas no lagar e provar o mosto ainda doce, enquanto o cheiro a mosto fermentado impregna as paredes de pedra.
Matela não guarda segredos espectaculares — aliás, se procuras adrenalina, melhor ficares pela cidade. Mas se quiseres perceber como se vive quando o tempo é medido pela sementeira e pela colheita, aqui tens escola. Basta deixar o carro na entrada da aldeia e andar. Aos poucos, o silêncio fala mais alto que o motor.