Artigo completo sobre Pinelo: Fumeiro, Altitude e Festa de São Bartolomeu
Aldeia transmontana a 629 metros onde o cabrito assa na brasa e as festas marcam o ritmo do ano
Ocultar artigo Ler artigo completo
O fumo sobe direito na manhã de agosto, do churrasqueiro de pedra junto à fonte. É cedo, mas já há lenha a estalar e a gordura do cabrito começa a pingar sobre as brasas de carvalho. O cheiro a alecrim e a alho espalha-se devagar pelas ruas de granito, mistura-se ao frio que ainda não largou de todo a altitude — aqui, a 629 metros, as noites mordem mesmo em pleno Verão. Pinelo acorda assim, com o ritmo próprio de quem sabe que o dia se mede em gestos precisos, não em horas.
Pedra, talha e promessa
A igreja de Nossa Senhora das Graças ergue-se no centro da aldeia, fachada caiada e portal em cantaria. Lá dentro, a talha dourada dos retábulos brilha à luz das velas, trabalho setecentista que sobreviveu intacto ao tempo e ao abandono. No adro, o cruzeiro de granito projecta uma sombra curta ao meio-dia. Em maio, no primeiro domingo, a procissão sai daqui e percorre as ruas estreitas, entre muros de pedra seca e portões de madeira gretada. Há cânticos, há foguetes, há o arraial que se prolonga até a noite fechar sobre o planalto.
Mas é em agosto que Pinelo respira fundo. A 24, dia de São Bartolomeu, a alvorada rebenta com bombos e o som grave ecoa pelos soutos de castanheiro. A procissão sobe a pé até à capela isolada no outeiro, onde o santo espera sob o telhado de lousa. Dali, o olhar cai sobre o vale do Angueira e os lameiros que ainda guardam verde. Há feira de doces, concertinas, prova de vinhos da casta bastarda — tintos leves, frescos, que nascem neste planalto mirandês onde a altitude tempera a uva.
Fumeiro, brasa e castanha
O frio das noites de Inverno, que aqui chegam a estar entre as mais gélidas do país, não é desperdício. É nessas madrugadas cortantes que o fumeiro cura devagar nos palheiros: chouriço de carne, alheira, toucinho que depois entra na feijoada transmontana. À mesa, o cabrito Transmontano DOP assa na brasa, pele estaladiça e carne tenra que se desfia com o garfo. O cordeiro mirandês, a chanfana de bode, a bola de carne — tudo carrega o peso da terra e o sabor a mato. Os formigos com mel fecham a refeição, doçura pegajosa que gruda aos dedos.
Em Outubro, os soutos vestem-se de ocre e os ouriços rebentam no chão. A castanha da Terra Fria DOP apanha-se à mão, enche sacos de serapilheira, vai para o forno ou para a panela. O azeite de Trás-os-Montes DOP tempera tudo — pão de milho, broa de centeio, as couves que crescem nos quintais.
Trilhos e silêncio
Quatro quilómetros separam a aldeia da capela de São Bartolomeu. O trilho sobe entre muros de xisto, corta pelos pinhais onde a resina aquece ao sol, desce para os lameiros onde a ribeira de Pinelo corre baixa ou seca, consoante a estação. Lá em cima, o vento bate forte e o silêncio é denso, só cortado pelo grito das aves de altitude. A nove quilómetros, o castelo de Algoso recorta-se contra o céu, torre medieval que vigiou durante séculos a fronteira com Leão.
Quando a luz da tarde começa a amarelar e o fumo do churrasqueiro já se dissipou, Pinelo volta ao ritmo lento de sempre. Fica o cheiro a lenha nas pedras, o eco dos bombos ainda preso ao ar, a sombra comprida do cruzeiro sobre o adro. E o frio que desce, pontual, assim que o sol mergulha atrás dos soutos.