Artigo completo sobre Curopos e Vale de Janeiro: vida lenta no coração de Montesin
Duas aldeias transmontanas onde o fumeiro, a castanha e o silêncio definem o quotidiano serrano
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A primeira luz da manhã chega devagar aos vales de Curopos e Vale de Janeiro, deslizando pelas encostas de carvalhos e castanheiros até pousar nas aldeias de xisto. O rio Janeiro murmura entre as cortinhas, e o fumo de uma lareira sobe direito no ar frio — alguém acendeu o lume para o café da manhã. Aqui, a 609 metros de altitude, o silêncio do Parque Natural de Montesinho não é vazio: ouve-se o vento nos soutos, o guincho distante de uma águia, os passos de um javali no mato.
Esta união de freguesias nasceu da reorganização administrativa de 2013, mas as duas aldeias já partilhavam séculos de história transmontana. Curopos — talvez do latim cuperus, antiga povoação — e Vale de Janeiro, batizada pelo rio que a atravessa, sobrevivem com 245 habitantes, dos quais 113 ultrapassaram os sessenta e cinco anos. São doze as crianças que ainda correm entre os espigueiros de granito. A densidade de 6,77 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em casas separadas por hectares de floresta, em caminhos de terra onde se cruza mais gado que gente.
Entre o fumeiro e a castanha
O fumeiro é aqui uma instituição. Presunto de Vinhais, salpicão, chouriça de carne — cada peça pendurada no escuro aromatizado de lenha de carvalho carrega meses de trabalho e séculos de técnica. A Carne Mirandesa e o Cordeiro Bragançano chegam aos tachos em feijoadas transmontanas e assados lentos, acompanhados pela Batata de Trás-os-Montes, que aqui cresce gorda e amarela nos campos de altitude. No outono, os soutos enchem-se de castanhas — a Castanha da Terra Fria DOP transforma-se em doces densos, farinha para broa, recheio para assados. Nada se desperdiça. Nada é pressa.
O caminho que atravessa a pedra
O Caminho Nascente de Santiago corta a freguesia, ligando Curopos a Vale de Janeiro por trilhos sinalizados entre muros de xisto e espigueiros. Caminhar aqui é atravessar um mosaico de agricultura de subsistência — leiras estreitas, videiras trepadeiras, milho seco pendurado nas varandas. Ao longe, as silhuetas de veados recortam-se contra o céu ao entardecer. O lobo ibérico deixa rastos nas zonas mais altas, mas raramente se mostra. As aves de rapina planam em círculos largos, aproveitando as correntes térmicas que sobem dos vales.
Agosto em procissão
A 15 de agosto, a Festa de Nossa Senhora da Assunção transforma Vale de Janeiro. Emigrantes regressam, as casas fechadas abrem-se, as mesas enchem-se de rojões e vitela assada. A procissão sai da igreja ao som de foguetes, serpenteia pelas ruas estreitas, para em cada cruzeiro. Depois da missa campal, há música e vinho regional de Trás-os-Montes até tarde. É o único dia do ano em que a freguesia parece cheia.
Ao cair da noite, o fumo das lareiras volta a subir direito. O rio Janeiro continua a murmurar, indiferente aos calendários. E no fumeiro, os enchidos envelhecem devagar, ganhando a cor escura e o aroma denso que só o tempo e a altitude sabem dar.