Artigo completo sobre Ervedosa: onde o fumeiro marca o tempo em Montesinho
Freguesia transmontana aos 542 metros, entre castanheiros centenários e fumeiros de carvalho
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A manhã chega devagar a Ervedosa. O nevoeiro sobe do vale como fumo de um cigarro mal apagado, e fica ali a pairar até o sol de Bragança o mandar embora. Há um silêncio que até assusta os visitantes de Lisboa — não é ausência de som, é a terra a recuperar o que é seu. O cheiro a lenha queimada escapa das chaminés de xisto, mistura-se com o aroma da terra húmida e com aquela coisa que não se explica mas que os locais chamam de "cheiro a montanha".
Caminhos que se acumulam
Ervedosa está no Caminho Nascente de Santiago, mas não espere encontrar aqui as filas de peregrinos de França ou do Norte. Aqui passa um gajo por mês, talvez dois no Verão, e costumam ser alemães com bengalas de carbono que olham para o café "O Pimenta" como quem vê um miradouro. A única coisa classificada é a igreja, mas isso ninguém liga — o que importa é que ainda toca os sinos às sete da manhã e às sete da noite, como tem feito desde que o meu avô era menino.
Dos 331 habitantes, 184 têm mais de 65 anos. São eles que mantêm os fumeiros a funcionar, que ainda sabem quando se salga o porco (em dias de lua descendente, senão estraga), que guardam a gordura do toucinho em jarros de barro como se fossem relíquias. O fumeiro do Zé Manel tem um cheiro que mete água na boca a qualquer um — madeira de carvalho, fumo doce, e aquela promessa de que daqui a seis meses vai haver presunto para cortar às fatias finas.
Geometria comestível
A comida de Ervedosa não é de restaurante. É de casa, daquelas receitas que as mulheres não escrevem porque "se sabe de cor". A batata cá do sítio é amarela como o sol de Agosto e quando a minha avó faz sopa de castanhas com chouriça, até o padre atrasa a missa. A Carne Mirandesa não é trend — é o que o António do Lameiro serve aos domingos quando a família toda se junta à volta da mesa de granito, e ninguém fala porque a boca está ocupada.
Nas cozinhas de cal e xisto, o presunto corta-se contra a luz da janela para se ver se está bom. A chouriça assa sobre brasas de castanho, e o óleo que escorre para o pão caseiro é melhor que qualquer azeite do Alentejo. Não há pressa. O fumeiro precisa de tempo, e o tempo cá anda diferente.
O peso do vazio
Caminhar por Ervedosa é ir encontrando casas onde já ninguém mora, mas onde ainda se vê a marca da mão que construiu o muro. O Parque de Montesinho está ali ao lado, e às vezes ainda se vê rastos de lobo na neve — ou dizem que é lobo, pode ser só o cão do João que se perdeu no outono passado.
As dezassete crianças que cá vivem sabem o que é o silêncio. Sabem que quando o vento muda de direção, é sinal que vai chamar o tempo. Sabem que o ladrar do Piloto, o cão do café, ecoa por três vales e que quando ele late às três da manhã, alguém está a passar.
Ao final da tarde, quando o sol se põe atrás do castanheiro do Carrascal, Ervedosa mostra o que é. Não é lugar para "fazer" — é para estar. Para deixar o fumo do fumeiro impregnar a roupa, para sentir o frio a subir pelas pernas, para perceber que há sítios onde o relógio serve só para não se perder a hora do jantar.