Artigo completo sobre Paçó: fumeiro lento e castanhais centenários em Vinhais
Aldeia transmontana de 154 habitantes onde o fumeiro artesanal e a Feira da Castanha guardam tradiçã
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O fumo sobe torto da chaminé de pedra — o vento da serra não deixa subir direito. Dentro da cozinha, o salpicão pende tão baixo que se esfrega na cabeça de quem passa, as varas de castanho estão pretas de tanto fumo, e o cheiro a lenha molhada mistura-se ao porco que ainda sangra no tachão. São sete e meia, mas em Paçó ninguém olha para o relógio: são os cães a ladrar e a porta do António a ranger que dizem que o dia começou.
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção fica ali mesmo, mas o reboco caiu todo do lado norte — deixa ver a pedra por baixo, como se a igreja tivesse vergonha da roupa rasgada. Dentro, o padre João ainda não acordou (veio do Fundão há três anos e diz que não se habitua ao frio). Em agosto, quando se vai à missa da padroeira, as velas apetrecham mais porca do que fé: há anos que se faz o caldo de castanha na casa da Dona Aurélia porque a igreja já não tem telha que aguente água. A "Feira da Castanha" é quatro mesas no largo e o Zé Mário a vender mel que na verdade vem de Miranda — as abelhas de Paçó não dão para tanto.
Onde a serra se estende em silêncio
A ribeira de Paçó seca no Verão. Em vez de lagoas, ficam poças cheias de cagados que as crianças atiram pedras. O Trilho das Castanheiras existe, sim senhora, mas ninguém o mantém: as setas de madeira partiram-se, há urtiga a tapar o caminho, e quem quiser ir às castanheiras velhas leva elástico nos tornozelos para não levar com carraças. Os javalis andam lá em cima — atropelaram o cão do Tonho no ano passado. A serra de Montesinho é mesmo bonita na Primavera, mas o amarelo das giestas dura duas semanas: depois fica tudo seco e cinzento, e os pastores queixam-se que as ovelhas comem espinho que lhes fura o estômago.
O Caminho Nascente passa aqui, mas os peregrinos são raros. Quando vêm, param na única fonte que ainda tem água — a outra entornou-se no inverno e ninguém a arranjou. Os espigueiros estão todos abandonados, sim, mas não foi "a economia que mudou": foi a velhice que levou quem sabia trabalhar a madeira. O último que conservava os seus morreu há cinco anos; agora são ninhos de melro.
O sabor do fumeiro
A matança ainda se faz, mas já não é "comunitária" — é cada um por si. O porco bísaro vem de Espanha, que em Paçó já ninguém cria porcos grandes; dá muito trabalho e a vizinha "Caça e Pesca" multa quem mata fora do mês. O borrego bragançano só aparece na Páscoa, quando o filho do restaurante de Vinhais vem escolher os animais; o resto do ano é arroz de feijão vermelho e toucinho fumado que a Maria guarda no congelador porque a lareira deixa deitar fumo para dentro da casa.
A capela de São Sebastião fica no cabeço, é verdade, mas a porta está fechada com cadeado desde que roubaram o santo de madeira. Dali a vista é boa — vê-se a aldeia toda, as telhas vermelhas que vão caindo, os telhados de alumínio que o Governo pôs, e a estrada municipal que ninguém asfalta há dezassete anos. O vento traz o cheiro a esterco que o Adelino está a espalhar na horta, o ronco do gerador do café (porque a luz falta todas as tardes) e, se for mesmo ao fim do dia, o silêncio que só se ouve quando nenhum tractor passa.
Quando escurece, o fumo volta a subir — agora cheira a caruma que a Gertrudes atira para a lareira porque a lenha boa já foi toda para a venda. Sobe torto, como de manhã, mas sobe sempre: é o sinal que lá em cima ainda há quem aguente o inverno que aí vem.