Artigo completo sobre Quirás e Pinheiro Novo: Fumeiros e Caretos na Serra
União de freguesias em Montesinho onde a chouriça cura ao fumo e os caretos saem à rua em Janeiro
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O fumo sobe direito da chaminé, como um homem que conhece o caminho de casa. Na aldeia de Quirás, a chouriça de Vinhais IGP pendura-se do varão como quem espera o autocarro: com paciência e jeito. Lá fora, o rio faz um som que lembra conversa de vizinho - baixa, contínua, sem pressa de acabar.
Isto aqui juntou-se em 2013, quando alguém no goverro decidiu que Quirás e Pinheiro Novo ficavam melhor no mesmo saco. São 203 almas - contei-as ontem no café, ainda sobraram - espalhadas por quase 6 mil hectares. Faz as contas: 3,4 pessoas por km². Dá para ficar sozinho sem ser mal-educado.
O que ficou para trás
A igreja de Quirás está ali desde que os avós dos avós eram novos. O retábulo é maneirista - isso quer dizer que os anjos têm perna mais comprida que o costume. Em Pinheiro Novo, a capela de São Sebastião guarda-se para quando é preciso. A ponte medieval aguenta-se: já viu passar gente a pé, a cavalo, em Fiat Uno e agora em SUV's de estrangeiros que vêm ver o lobo.
As palheiras de xisto são como as garrafas de vazio na cave: ninguém as manda abaixo porque podem dar jeito. Os moinhos recuperam-se - um deles até mói, se chover o suficiente.
Dias que ainda se fazem
A 15 de Agosto, a aldeia enche-se de gente que cá não vive. É como um jantar de família em que todos aparecem, comem e deixam loiça. Há missa, procissão e um baile onde os velhos se lembram de quando eram novos e os novos fingem que gostam de pimba.
Em Janeiro, os Caretos saem na rua com máscaras de lã. Parecem os netos do "slash" dos GNR, mas são só rapazes a tentar assustar o inverno. A Páscoa traz o Compasso: o padre vai de porta em porta abençoar casas, e ninguém lhe diz que já tem central heating.
O que se come (e bebe)
A chanfana leva borrego, vinho da casa e tempo. Muito tempo. A feijoada é como a conversa do Zé do café: come-se devagar e deixa marcas. O cabrito na brasa precisa só de sal e paciência - como uma boa discussão de futebol.
A castanha é DOP, o que quer dizer que é castanha a sério. Não é daquelas que vem em saquinhos do supermercado. O pão de centeio é pesado como uma consciência mal-dormida. O medronho... bem, o medronho é o que é: faz esquecer que se tem 65 anos e a filha em Paris.
Caminhos para quem tem tempo
O trilho das Azenhas são 5 km que se fazem em duas horas ou em seis, depende das paragens para falar com quem se encontra. O Caminho de Santiago passa cá, mas os peregrinos vão sempre com pressa. Dão para ver à distância: andam de mochila às costas e de telemóvel na mão.
No souto, a Festa da Castanha é em Outubro. Há concurso da maior castanha, mas o vencedor é sempre o mesmo: o António que tem árvores centenárias e mãos que ainda não tremem.
Cheira a fim-de-tarde
Quando o dia acaba, o nevoeiro desce como um visitante que não se anuncia. O cheiro a castanha assada mistura-se com o fumo dos fumeiros. É altura de ir para casa, que o cão já está a esperar e o café fecha às nove.
Quirás e Pinheiro Novo não são sítios para quem quer espetáculo. São para quem quer ouvir o próprio pensamento, comer comida que se sabe o que é, e lembrar que os relógios também servem para saber quando é hora de não fazer nada.