Artigo completo sobre Santalha: terra de fumeiro e peregrinos em Montesinho
Freguesia de Vinhais onde o Caminho de Santiago cruza vales de xisto e tradição transmontana
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A luz da manhã demora a chegar aos vales de Santalha. Quando finalmente rasga o nevoeiro que se acumula entre os montes, ilumina primeiro os telhados de xisto e só depois desce até aos caminhos de terra batida que cortam os 2903 hectares de território. O silêncio aqui tem peso — apenas quebrado pelo sino da igreja que marca as horas para os 188 habitantes que resistem a 566 metros de altitude, encostados à vastidão do Parque Natural de Montesinho.
Povoação de Passagem e Permanência
Santalha vive entre dois ritmos. O dos que ficam — dez crianças entre 103 idosos — e o dos que passam. O Caminho Nascente do Caminho de Santiago atravessa a freguesia desde 2017, trazendo peregrinos que carregam mochilas e bordões, procurando abrigo antes de enfrentar os troços seguintes pela Terra Fria. As pegadas na lama seca dos caminhos misturam-se: botas de caminhada, tamancos de borracha, patas de cabras que sobem aos lameiros.
A densidade de 6,47 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em horizontes largos onde o olhar não encontra vedações, apenas muros baixos de pedra solta que delimitam propriedades sem pressa. As casas concentram-se em núcleos, deixando entre elas espaços de cultivo onde a Batata de Trás-os-Montes cresce na terra escura, e os castanheiros da Terra Fria estendem ramos nodosos carregados no outono.
Fumeiro e Tradição
Nos fumeiros escuros das casas mais antigas, o Presunto Bísaro de Vinhais — com Denominação de Origem Protegida desde 1996 — e o Salpicão pendem das vigas de castanho, envoltos em fumo de carvalho. O cheiro a gordura curada e especiarias impregna as paredes de granito. A Chouriça de Carne e a Linguiça de Vinhais completam um reportório que se repete de geração em geração, técnicas transmitidas sem manual, apenas pelo gesto e pela prova. O Cordeiro Bragançano — com IGP desde 2008 — pasta nos lameiros altos, e a Carne Mirandesa — embora mais rara aqui — chega às mesas em dias de festa.
Agosto no Adro
A Festa de Nossa Senhora da Assunção concentra em agosto o que o resto do ano dispersa. No dia 15, o adro enche-se, as mesas alongam-se sob os carvalhos, e o fumo dos assadores mistura-se com o pó que os sapatos levantam. Durante algumas horas, Santalha multiplica-se — os emigrantes regressam de França e Suíça, os peregrinos param, e o sino toca mais vezes. A procissão desce desde a igreja matriz de finais do século XVIII até ao cruzeiro de pedra, onde se guardam ainda marcas de 1887 na base.
No Coração de Montesinho
O Parque Natural de Montesinho — criado em 1979 — começa onde o último muro acaba. Os trilhos pedestres sobem entre giesta e urze, e o ar arrefece à medida que a altitude aumenta. Aqui, o turismo de natureza não é espetáculo — é paciência. Observar a vida selvagem exige esperar, caminhar devagar, deixar que os olhos se habituem à camuflagem do javali entre os fetos ou ao voo rasante do açor. O posto de abrigado mais próximo fica a 3 km, em Moimentas, onde António guarda mapas e recomendações desde 1983.
Quando a tarde cai e o nevoeiro regressa, as luzes das casas acendem-se uma a uma. Pequenos quadrados amarelos recortados na penumbra cinzenta, espaçados como contas num rosário. O fumo das lareiras sobe direito até se desfazer no ar frio da montanha.