Artigo completo sobre Vale das Fontes: Nascentes de Granito e Vida no Sopé
Freguesia de Vinhais onde a água dita o ritmo e o regadio comunitário resiste há dois séculos
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O som da água contra a pedra acompanha os passos na terra batida. Em Vale das Fontes, a geografia escreve-se em nascentes — bicas de granito escuro, canais talhados há dois séculos, o murmúrio constante que atravessa os lugares de Vale, Rossa, Laranjeira e Cimo de Vila. Aqui, a 499 metros de altitude no sopé ocidental de Montesinho, o vale verdeja porque a água não falta. São as fontes que batizam a freguesia desde 1855, quando se desmembrou de São Salvador de Viveiro, e são elas que ainda hoje organizam o quotidiano dos 262 habitantes — 139 deles acima dos 65 anos — que partilham o regadio comunitário por turnos, como se fazia antes da memória escrita.
O Vale e as Suas Veias
A paisagem suave-ondulada engana: sob os matos de esteva e urze, entre sobreiros e manchas de pinhal, corre uma rede subterrânea de nascentes que alimenta pequenos cursos de água em direcção ao rio Vinhais. O Parque Natural de Montesinho estende-se pela freguesia, trazendo javali, corço, raposa e o gato-bravo que só se deixa adivinhar pelos rastos. Os caminhos rurais de terra batida, usados para pastoreio e colheita de castanha, não estão sinalizados — percorrem-se pela intuição e pela conversa com quem aqui vive. No lugar da Laranjeira, hoje quase despovoado, o nome guarda memória de uma quinta que produzia laranjas protegidas de geada pelas encostas, raridade no Nordeste Transmontano.
Enchidos, Castanha e Forno de Lenha
A cozinha obedece ao calendário e ao fumeiro. Chouriça de carne e linguiça de Vinhais IGP, presunto bísaro de Vinhais IGP, salpicão IGP — tudo porco bísaro, tudo defumado devagar. O borrego bragançano DOP e a carne mirandesa DOP assam em forno de lenha, acompanhados pela batata de Trás-os-Montes IGP estonada com toucinho e salsa. No outono, a castanha da Terra Fria DOP coze nas brasas ou entra nos «bolinhos de festa» com canela e noz. As tascas comunitárias servem caldo de nabos e febras com castanhas, regadas a vinho tinto da casta bastardo. Nas eiras convertidas em pequeno centro de interpretação da castanha, prova-se aguardente de medronho enquanto se ouve o relato dos turnos de rega.
Agosto e o Regresso
A 15 de agosto, a Festa de Nossa Senhora da Assunção traz de volta os emigrantes. Missa campal, procissão, arraial — e as tascas onde se juntam gerações em torno da mesma travessa de enchidos. Não há feira medieval nem romaria turística, apenas a devoção antiga e o pretexto para voltar. O Caminho de Santiago — Caminho Nascente — atravessa a freguesia no traçado medieval rumo a Bragança, mas são poucos os peregrinos que param. A maioria segue, levando apenas o eco das fontes na memória.
Quando a tarde cai e o sol rasante dourou o xisto dos canais de rega, ouve-se o fecho das bicas — cada uma no seu turno, como manda a tradição. A água continua a correr, invisível, sob a terra fria.