Artigo completo sobre Vilar de Lomba: vida a 708 metros entre xisto e carvalho
União de freguesias em Vinhais onde fumeiros, castanheiros e pedra solta contam séculos de resistênc
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O fumo sobe direito dos telhados de xisto, como quem não tem pressa nenhuma. É o mesmo gesto de sempre: acender o fumeiro ao amanhecer e deixar o carvalho fazer o trabalho dele. A 708 metros de altitude, o ar da manhã tem um bico — lembra-te daquele ar que te faz cócegas no nariz quando abres a porta da padaria? É parecido, mas com cheiro a terra molhada e a castanhas que alguém está a assar na frigideira de ferro.
Vilar de Lomba e São Jomil juntaram-se num papel em 2013, mas as aldeias já se conheciam de longa data. O nome diz-te logo o que vais encontrar: "vilar" é aldeia, "lomba" é aquela costela de monte que te faz parar para respirar quando vais a subir. São 207 almas, contadas de cor por qualquer velho que esteja no café — sim, porque aqui ainda se sabe quem nasceu, quem casou e quem está do outro lado da rua só pela forma de andar.
Onde o Parque Natural bate à porta
O Parque de Montesinho não é um sítio onde se vá — é um sítio onde se está. Os castanheiros são os donos do outono, os carvalhos agarram-se às encostas como velhos apertados ao banco do jardim, e os ribeiros fazem aquela música de fundo que até os turistas do Santiago apanham no ouvido. Se vieres em outubro, leva um saco de papel para as castanhas. Não é preciso GPS: é seguir o cheiro a fruta madura e o chão farpado dos ouriços.
A densidade populacional é de sete pessoas por km², o que quer dizer que podes gritar "Olá!" e só te responde o teu eco. Mas não te iludas: o silêncio é enganador. Há sempre um cão que ladra a quilómetro de distância, um trator que arranca mal tratado ou a Maria da porta ao lado a chamar o neto para o jantar.
O que se come (e se fuma)
A gastronomia não é para fotografar — é para encher o prato e pedir mais. No fumeiro, o presunto de Vinhais ganha cor de tabaco velho e sabor a tempo. O salpicão é cortado à faca, às postas grossas, e a carne mirandesa não se pede ao ponto — pede-se "como o Sr. António gosta", e o Sr. António gosta mal passada. Na festa da Assunção, a rua vira cozinha: mesas de madeira, toalhas que já foram brancas, e o cordeiro a rodar no espeto enquanto o padre dá umas voltas com a procissão. Se te convidarem, senta-te. Não leves acompanhante: aqui faz-se companhia na hora.
Onde se dorme (só se for mesmo)
Há uma casa para dormir. É só uma. Não tem wi-fi de jeito, mas tem janelas que dão para a serra e um galo que te garante que não perdes o comboio. Acordas com o cheiro a pão que a vizinha traz ainda quente, e se quiseres manteiga é só ir à quinta ao lado — leva uma garrafa vazia, voltas com ela cheia de leite.
No final do dia, quando o sol se esconde atrás da serra como quem se mete na cama, o fumo volta a subir. É o mesmo fumo de sempre, o que não precisa de nome nem de selo de origem. É só a maneira que estas 207 pessoas encontraram de dizer: "Ainda cá estamos. Venham jantar, se quiserem."