Artigo completo sobre Vilar Seco de Lomba: fumeiros e talha dourada em Montesinho
Aldeia transmontana a 753m de altitude preserva adegas comunitárias e tradição do fumeiro de Vinhais
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O fumo sobe direito da chaminé do espigueiro, desenhando uma linha vertical no ar frio da manhã. A 753 metros de altitude, Vilar Seco de Lomba acorda devagar — o sino da igreja marca as oito, o eco ressoa no vale do Mente e perde-se entre os soutos de castanheiros que cobrem a encosta. Nas adegas comunitárias, as portas de madeira gretada pelo tempo guardam o cheiro a mosto e a pedra húmida. Aqui, no coração do Parque Natural de Montesinho, a vida obedece ao calendário da castanha, do fumeiro e da chuva.
O peso da talha dourada
A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção ergue-se no centro da aldeia, o pináculo rococó do campanário recortado contra o cinzento das nuvens baixas. Construída em 1723, tal como consta na lápide da sacristia, guarda um retábulo barroco de talha dourada que veio do desaparecido Mosteiro de Castro de Avelãs. Na capela lateral, Santo António vigia em silêncio — é o padroeiro dos noivos, e aqui se bendizem as alianças desde que a capela foi acrescentada em 1874. No adro, o cruzeiro de granito do século XIX marca o ponto onde, a 15 de agosto, a procissão se detém e as vozes das mulheres se elevam em cântico. Nesse dia, o aroma a pão-de-ló mistura-se com o fumo das fogueiras do arraial, e a aldeia — 186 habitantes, sete crianças, cento e cinco idosos — multiplica-se em vozes e risos.
Três lagares, uma memória
Vilar Seco de Lomba conserva três adegas comunitárias onde os moradores partilham o lagar e a prensa. A do "Lugar do Meio" tem ainda o lagar de granito original de 1892, com a cuba lavrada à mão e a rosca de ferro forjado que o bisavô de Américo Morais transportou a burro desde Vinhais. No outono, o vinho de mesa fermenta em toneis de castanho, e o ar carrega o cheiro denso e doce da uva bastardo pisada. Nas cozinhas, o porco bísaro transforma-se em chouriça de carne, linguiça e salpicão de Vinhais IGP, pendurados nos fumeiros onde a lenha de carvalho arde devagar. A "Festa do Fumeiro", no domingo seguinte à Assunção, celebra este ciclo: fatias grossas de enchido grelhado, batata de Trás-os-Montes IGP assada nas brasas, vinho tinto servido em canecas de barro — as mesmas que Joaquina Cerqueira ainda faz no seu torno, como aprendeu com a mãe.
O trilho que atravessa o silêncio
O PR3 "Caminho da Lomba" serpenteia por seis quilómetros de muros de pedra seca, lameiros onde o orvalho brilha até meio da manhã, bosques de giestas que explodem em amarelo na primavera. O Rio Mente corre invisível entre amieiros, mas o murmúrio da água acompanha os passos. No miradouro municipal, a serra de Montesinho desenha-se ao longe, e o vale abre-se numa sucessão de tons de verde-musgo e castanho-ferrugem. Garranos pastam nas clareiras; o voo pesado de uma águia-de-asa-redonda risca o céu. O trilho foi aberto em 2004 por iniciativa da associação de moradores, recuperando o caminho que as mulheres faziam até à fábrica de lanifícios de Guadramil — fechou em 1983, mas as ruínas ainda estão lá, escondidas no matagal.
Carimbo e credencial
O Caminho Nascente de Santiago atravessa a aldeia desde 2017, trazendo peregrinos que param no antigo chafariz lavadeiro — construído em 1926 com dinheiro dos emigrantes no Brasil — para encher as cantis. A Junta de Freguesia oferece o selo, desenhado por Natália Guedes, neta do ex-presidente Albino Marques. Alguns ficam a pernoitar nas cinco moradias de turismo rural, acordam com o cheiro a lenha e partem ao amanhecer, a mochila às costas e o som dos sinos a desvanecer-se atrás da lomba.
Quando novembro chega, o magusto reúne as famílias no largo. As castanhas da Terra Fria DOP assam sobre as brasas, a casca estala, a polpa fumega. Eduardo Borges Nunes, o paleógrafo que nasceu aqui em 1932 e decifrou manuscritos medievais na Torre do Tombo, não voltou desde 1987. Mas a aldeia guarda a sua memória como guarda os soutos centenários: em silêncio, enraizada no xisto, resistindo ao frio.