Artigo completo sobre Aldeia de São Francisco: memória mineira na Serra
Gasómetro de volfrâmio, bairro operário e trilhos entre o granito serrano da Covilhã
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O eco metálico sobe do vale antes de se ver o gasómetro. Dezasseis metros de ferro que rangem quando o vento é norte, guardando memória de quando a montanha era perfurada em busca de volfrâmio. Aldeia de São Francisco de Assis — que os mais velhos ainda chamam Bodelhão — ergue-se a setecentos metros, entre o granito das casas e o xisto que serve de tampa. Quatrocentos e oitenta e nove almas agarradas à encosta, onde o subsolo já valeu mais que a superfície.
O nome que chegou tarde
Foi preciso esperar por 1901 para deixar de ser anexo de Ourondo. Vinte e sete anos depois, baptizaram-na com o nome do frade de Assis. A Igreja Matriz de 1942 tem cheiro a cera queimada e bancos de madeira onde se sentam os mesmos sobrenomes de sempre. A festa de Nossa Senhora da Conceição não tem bandas nem fogo-de-artifício — é missa às onze, bolo de canela no adro, e o padre a repetir nomes que já baptizou três vezes.
O ferro que nos criou
O gasómetro agora é museu, mas antigamente rangia de manhã à noite. Ainda se encontram pegadas de xisto no chão da sala das máquinas — aquele pó preto que nunca mais sai das solas. Quem quiser visitar liga para a Junta à segunda-feira, porque a D. Lurdes só lá vai de manhã. Nas Minas da Panasqueira, ainda se ouvem explosões ao fundo. A Barroca Grande guarda as casas onde os mineiros dormiam a sono pesado, cheios de pó nos pulmões.
Os caminhos que a serra nos deu
O Zêzere corre lá em baixo, mas só se vê no fim do trilho. A subida à Barroca faz-se entre oliveiras centenárias — as mesmas que os nossos avós já podavam. O Caminho de Santiago passa aqui, mas os peregrinos são poucos. Mais vale seguir o cheiro a eucalipto e deixar-se levar até ao ribeiro onde as crianças aprendem a nadar.
A comida que a terra dá
Chanfana que coze durante o dia todo na lareira da Dona Alice. Borrego de leite que o Joaquim vai buscar a pé até ao Curral do Gato. O queijo é mesmo da Serra — aquele que se espalha no pão como manteiga. Nas cerejeiras da Cova da Beira, os frutos estouram em Maio. O azeite é amargo, como tem de ser, e faz tossir quem não está habituado.
Quando o sol se põe atrás do gasómetro, as lousas dos telhados tingem-se de laranja. É a hora em que os cães se juntam na praça e os velhos afinam a gaita. A serra fica quieta, mas não silenciosa — há sempre um tractor ao longe, ou um mineiro a voltar para casa com as botas a bater no chão de xisto.