Artigo completo sobre Cantar-Galo: onde os peregrinos sobem a 916 metros
Freguesia serrana no Parque Natural da Serra da Estrela, entre trilhos antigos e queijo DOP
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A luz da manhã entra oblíqua pelas frestas das portadas de madeira. Lá fora, o som dos sinos da igreja marca as horas num ritmo que poucos lugares ainda conhecem — não apressado, não ansioso, apenas presente. Cantar-Galo ergue-se a 916 metros de altitude, na encosta da Serra da Estrela, onde o ar tem uma densidade diferente e o silêncio pesa como um cobertor de lã.
Dizem que o nome vem dos galeiros - desses trabalhadores das minas que aqui passavam e que, segundo a lenda, cantavam para espantar a solidão da serra. Hoje, o único canto que se ouve é o dos passarinhos e, às vezes, o do Sr. António quando vai para a vinha aos cântaros.
A freguesia está dentro do Parque Natural da Serra da Estrela e do Geopark Estrela. Mas isto para ti quer dizer uma coisa: granito por todo o lado, aquele que faz os sapatos gastos em duas semanas, e vistas que compensam a subida. Quando a neve se demora nas cumeadas e o vale já está verde, é como ter dois anos em simultâneo.
Nos trilhos dos peregrinos
O Caminho de Santiago passa aqui, mas não é aquele de que toda a gente fala. É o Interior, o que sobe e desce como vida de solteiro. Os peregrinos chegam com a respiração curta e perguntam se falta muito. A resposta é sempre "depende", porque aqui tudo depende - das pernas, do vento, da vontade.
Ao lado do caminho, muros de xisto que o tempo foi fazendo. Diz o meu avô que estas paredes são como nós - vão cedendo nas juntas, mas aguentam-se de pé.
Mesa serrana
A comida é o que é: o queijo não está na montra para enfeitar, está ali porque é desta semana. O requeijão come-se com pão que ainda está quente - se estiver frio, é sinal que chegaste tarde.
O borrego é dos que pastam mesmo ali em cima, onde a erva é escassa mas sabe a coisa rara. E as cerejas... ah, as cerejas. Quando chega a altura, é como se o Fundão se tivesse mudado para cá. Compras-se por caixas, comes-se por punhados, e os dedos ficam vermelhos como quem trabalhou no vinho.
O peso dos anos
Dos 1606 habitantes, 587 têm mais de 65 anos. Isto não é estatística, é a fila do pão às sete da manhã. Mas ainda há 111 miúdos, o que quer dizer que a escola ainda abre - por enquanto.
Às vezes penso que o lugar está a ficar como as oliveiras velhas: produz menos, mas o que produz tem mais sabor. As escadarias de granito são subidas devagar, é verdade, mas há sempre alguém na janela a ver quem passa, e isso ainda não se inventou em lado nenhum.
Ao fim da tarde, quando o sol pega nas fachadas como quem esqueceu o fogo ligado, o frio desce da serra como visita que não marcou hora. As portas fecham-se cedo, é certo, mas dentro há lareira acesa, há vinho da terra, e há sempre uma história para contar - porque aqui, as histórias são como o pão: fazem-se todos os dias, e nunca saem iguais.