Artigo completo sobre Casegas: onde duas ribeiras se encontram na Estrela
Freguesia da Covilhã com 300 habitantes, queijos DOP e o primeiro mapa de Portugal de 1561
Ocultar artigo Ler artigo completo
O som da água chega antes da ribeira. Entre contrafortes que parecen guarda-costas da Estrela, Casegas fica onde duas águas se encontram — a ribeira de Unhais e a que leva o nome da terra. Quatrocentos e quarenta e nove metros de altitude fazem o dia inteiro aqui: manhã fresca que a pedra guarda, meio-dia seco que faz o xisto cintilar, aragem ao fim da tarde quando o vale respira.
Trezentos habitantes distribuem-se por quatro mil hectares. Os olhos confirmam as contas: cento e quarenta e cinco pessoas com mais de sessenta e cinco anos, catorze crianças. O silêncio não é ausência — é um vizinho que se habitua, pontuado por um ladrar distante, um tractor que sobe a encosta como quem vai ao café.
Onde a cartografia começou
Em 1561, Fernando Álvares Secp desenhou o primeiro mapa de Portugal. Entre os nomes que pôs no papel aparece "Caregas" — a nossa grafia antiga. Vem do latim casus, casa, por causa das habitações espalhadas que desde a Idade Média se agarram às encostas. Não há monumentos nem placas, mas há a consciência de que este buraco foi importante o suficiente para entrar no primeiro mapear do país.
Terra dentro do Parque
Casegas está dentro do Parque Natural da Serra da Estrela e do Geopark Estrela. Tradução: não se pode construir onde se quer, o granito continua a sair à superfície, e as oliveiras centenárias ficam onde estão. Os peregrinos do Caminho Interior — também chamado Via Lusitana — atravessam a aldeia a caminho de Santiago. Passam entre muros de pedra solta, cruzam-se com rebanhos, enchem cantis nas fontes como se fossem máquinas de café.
Sabores que já cá estavam
A gastronomia não se inventa — certifica-se porque já era assim. O Queijo Serra da Estrela DOP amadurece em caves que são antigas adegas. O Requeijão come-se morno com pão que ainda cospe vapor. O Borrego Serra da Estrela DOP pasta onde pasta, o Cabrito da Beira IGP cresce entre urzes. As cerejeiras dão fruto com selo — Cereja da Cova da Beira IGP, Cereja do Fundão IGP. Os pessegueiros e macieiras seguem a lógica. O azeite vem de olivais que já eram velhos quando os nossos avós nasceram. A vinha aguenta-se nas encostas abrigadas, faz vinhos que sabem a xisto e a ar que falta.
Há duas moradias de alojamento local. Quem fica dorme com as janelas abertas, ouve a ribeira durante a noite, acorda com cheiro a lenha das lareiras que ainda aquecem as casas quando Março não se decide entre Inverno e Primavera. A abstenção eleitoral passa dos 65% — diz mais sobre o país do que sobre quem cá fica.
Ao entardecer, a luz rasante desenha sombras compridas nos vales. O granito das soleiras ainda guarda o calor do dia. Alguém fecha o portão do quintal, o trinco de ferro range, e esse som metálico ecoa entre as casas como quem diz que o dia acabou.