Artigo completo sobre Coutada: aldeia de socalcos e pomares na Cova da Beira
Freguesia da Covilhã a 443 metros de altitude, entre olivais, cerejeiras e a orla da Serra da Estrel
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A estrada desce entre oliveiras e algumas cerejeiras — são menos do que havia, mas ainda marcam o caminho. Quando o asfalto aperta na curva antes da ponte, Coutada aparece lá em baixo, encostada ao vale como quem se esqueceu de sair. A aldeia espreme-se em patamares, casas de xisto umas por cima das outras, e o mais certo é estacionar à entrada e descer a pé. A 443 metros, o ar não é de montanha, mas já não cheira à cidade — traz fumo de lenha e, se for altura, o azedo das azeitonas na prensa.
São 361 almas, diz o papel. Na prática, são menos à segunda-feira de manhã, mais no fim-de-semana quando os filhos regressam. Pertencemos à Covilhã mas a Serra da Estrela bate à porta: basta subir a estrada para o Paul até o verde escuro dos pinheiros substituir os olivais. Aqui ainda se fazem cerejas — mas já não como antigamente, quando a colheita era escola suspensa e metade da aldeia nos campos. Agora quem tem pomar vende a quem aparece ou deixa cair para o engenho, e em Junho vêm os contentores de Espanha buscar o que sobra.
O que se come (e bebe)
Não há restaurante em Coutada. Há café — o Marques — onde se serve o pequeno-almoço ao domingo e, se encomendar, cabrito no forno às festas. O resto é casa de família: queijo da Serra que alguém traz da Torre, requeijão que a D. Alice ainda faz no tachinho de barro, azeite da Beira Baixa que o Zé Manel vende por garrafões de cinco litros. O vinho é do talho ou da vindima de um primo: tintos que não enganam, brancos que azedam se não se beberem a tempo. O fumeiro vem da Guarda — chouriço de carne de porco preto, toucinho que se guarda em sal grosso, tudo o que a serra manda abaixo quando mata o porco.
Passagem, não destino
Coutada está na Via Lusitana, mas os peregrinos são raros. Quando aparecem, param na fonte, enchem a garrafa, perguntam se falta muito para a Covilhã. Dizemos que são 8 km, mas são 8 km a subir — e eles descansam mais cinco minutos, sentados no banco de cimento à sombra do eucalipto. A igreja está aberta, mas não há souvenir nem carimbo. Há apenas o livro de assinaturas, onde alguém escreveu “obrigado por existirem” — e isso chega.
À noite, quando as luzes acendem uma a uma, o silêncio é quase absoluto. Não é paz, é falta de gente. Mas também é isso que faz com que se ouça o rio lá em baixo, o cão do Fontão a ladrar à Lua, o tractor do Adelino a aquecer às seis da manhã. Coutada não é lugar para programas. É para quem quer parar, comer uma cereja directa da árvore e perceber que o tempo não passa mais depressa do que a fruta madura.